Piloto Nelson Ricciardi

Aos trancos, vou arrancando memórias destes meus amigos semi-velhos e dando continuidade ao projeto de reunir memórias do nosso motociclismo aqui no Motozoo. Não é a exata realização do Projeto Figuras Carimbadas, mas passa perto. Estou aproveitando que estamos na pausa das corridas e também que fiz ultimamente três artigos de sobre a memória do nosso motociclismo. Aqui, aqui e aqui.

O piloto Nelson Ricciardi, antes de ser piloto e meu amigo, era o irmão da Claudinha. Mas como gostávamos de computadores e motocicletas, ficamos logo muito amigos. No final dos anos de 1990, Nelsinho esteve empolgado, comprou uma Ducati 916 com o Bebeto, depois uma Kawasaki ZX-6R e resolveu disputar o Campeonato Brasileiro na categoria Super Sport. Fui convidado/me ofereci para ser seu chefe de equipe, e juntos, com o Nei Mariano e depois o mecânico Edinho, fizemos uma excepcional temporada.

Lembra o Nelsinho:

A ideia de correr de motovelocidade, começando tão tarde, já macaco velho, era inicialmente apenas a tentativa de concretizar um sonho de criança. A criança que tinha na parede do quarto um pôster de Kenny Roberts e que se perguntava: “Como é que pode colocar o joelho no chão assim?”. Entrar na pista significava conectar o agora adulto à criança de então. Era apenas isso.

Fui de curioso, e com medo. Fui porque conhecia quem participava do campeonato e me encorajou. A proposta inicial? Vamos fazer uma corrida no Rio, ao lado de casa. A gente vive o sonho e vira a página, eu dizia para mim mesmo.

E por que o medo? Sinceramente? Eu tinha receio de ser lento demais e atrapalhar os outros na pista. De colocar meus oponentes em risco em função da minha inadequação àquilo tudo. Eu não tinha vergonha de ser lento. Tinha medo mesmo. Como havia competido de kart anos antes, eu sabia que, mesmo disputando a 15.ª posição, você se diverte muito brigando com o 14.º. Então, sem grandes aspirações, eu queria apenas me divertir e não atrapalhar aqueles que, de fato, sabiam o que estavam fazendo.

Um ano antes, eu havia começado a estudar muito sobre técnicas de pilotagem. Não tinha experiência concreta nenhuma. Apenas conhecia a teoria e os métodos de Keith Code, tão bem explicados em seus livros. Eu li todos, mais de uma vez. Estudei os livros com afinco e passei a adotar suas dicas ao guiar na rua.

A primeira corrida é minha maior memória. Foi no quintal de casa, em Jacarepaguá. A moto, uma Kawasaki, estava 100% original, afinal não existia a pretensão de correr mais do que uma prova. Investir na moto para fazer apenas uma corrida não fazia sentido algum.

Nos treinos, uma surpresa: toda vez que subíamos além de 11 mil giros, o motor começava a ratear. Mesmo chefes de outras equipes vieram falar comigo, preocupados com o estado do motor. Tentou-se de tudo, e nada funcionou. Dias depois da prova, na oficina, com todos os equipamentos na bancada, descobrimos que um cabo de vela estava com a impedância errada e não operava direito em alta carga. Coisa rara e praticamente impossível de se resolver na pista. Então corremos com 3 cilindros e meio.

Para minha completa surpresa, classifiquei a moto em 12.º num grid com 31 competidores. Eu imaginava que seria o último, mas consegui ficar no bolo. Foi uma tremenda surpresa.

No domingo de manhã, acordamos com chuva. E eu, que já tinha que lidar com o nervosismo da primeira corrida, tinha que agora me acostumar com a ideia de correr na chuva. “O que estou fazendo, que maluquice é essa?”. Claro que isso passou pela minha cabeça.

Vinte minutos antes da largada, a chuva parou. Largamos com a pista molhada, mas ela foi secando lentamente. As condições mudavam para melhor, volta a volta, e era complexo, muito complexo para alguém com pouca experiência como eu, avaliar o quão mais rápido dava para virar conforme o asfalto secava.

A pista continuou secando e a turma andando mais rápido, até que, faltando umas seis voltas para a bandeirada, a chuva voltou. Fraca, mas constante, e na pista toda. Agora era preciso avaliar o oposto: o quanto reduzir o ritmo a cada volta para não acabar no chão faltando poucas voltas.

E eu pensando: “Poxa, precisava ser complicado assim logo na primeira corrida?”. E mão no fundo com 3 cilindros e meio, trocando de marcha a 11 mil giros ao invés de 14 mil, para não quebrar o motor.

No final, descobri que não importa a posição em que se chegue, a primeira bandeirada a gente nunca esquece. Ver o diretor de prova com a bandeira na mão ao se apontar na reta gera uma sensação extraordinária de missão cumprida. O sonho do moleque de 10 anos, fã de Kenny Roberts, estava concretizado.

Estava cansado, exausto, tenso, mas feliz. No parque fechado apareceram Mario e Nei, querido e saudoso Nei, berrando: “Você chegou em oitavo! Você é top 10 na prova!”.

Essa é uma das grandes lembranças que trago da vida. E junto com ela carrego a gratidão eterna a Mario e Nei, fundamentais em mais de um aspecto, e sem os quais este capítulo não teria sido escrito.

O que tenho a dizer sobre isso?

Nelsinho descreveu apenas uma das corridas que fizemos e cada corrida, cada uma delas tem uma história diferente e que vale a pena ser contada. Nelsinho esfregou na minha cara a importância e eficiência do estudo. Me apresentou os livros do Keith Code, que também li muitas vezes.

Keith Code dispensa apresentações para quem acompanha a motovelocidade internacional, mas talvez seu nome ainda seja pouco conhecido por muitos motociclistas brasileiros. Ex-piloto e um dos maiores estudiosos da técnica de pilotagem, ele revolucionou a forma de ensinar a conduzir uma motocicleta esportiva ao transformar sensações e instinto em método. Fundador da California Superbike School e autor da consagrada série de livros A Twist of the Wrist, Code mostrou que pilotar rápido e com segurança não é um dom reservado a poucos, mas uma habilidade que pode ser aprendida, estudada e aperfeiçoada. Foi justamente por meio de seus livros que começamos a enxergar a pilotagem de uma maneira completamente diferente, e aqueles ensinamentos acabariam influenciando profundamente nossa equipe e nossos resultados nas pistas.

Alguns anos mais tarde tive a oportunidade de junto com o Décio, trazer o Keith e toda a sua California Superbike School para treinamentos e cursos no Brasil. Uma coisa sensacional. E sou o melhor amigo carioca do Keith até hoje, um homem muito bacana.

Com estudo, técnica, planejamento, esforço e muito talento, melhoramos constantemente a cada saída para pista, correndo com objetivos claros, analisando fatos objetivos, sem fumar maconha, sendo o mais profissionais possíveis dentro do amadorismo que foi a nossa equipe. E assim, baixamos tempo em todas as voltas, em todos os autódromos e no final chegamos em sexto no campeonato brasileiro, sendo a primeira equipe privada e a primeira equipe carioca na classificação geral. Um resultado excepcional.

Lembro-me de uma prova em Goiânia quando levaram um dinamômetro para a pista e a Kawa de fábrica, completamente fuçada e que fazia um barulho de assustar botou 98 CVs na roda, e a nossa, com apenas um kit Dynojet e uma ponteira Micron, meteu 102 CVs. Foi engraçado.

Muitas saudades do Piloto Nei Mariano, o incrível Neizinho.

Então é isso, fica aqui no Motozoo mais este registro, de muitos que espero ir somando para depois editar um livro, para guardar as memórias do nosso motociclismo. As corridas acabam. Os autódromos mudam. Os pilotos envelhecem. Alguns amigos já não estão mais entre nós. Mas enquanto essas histórias forem escritas, uma parte importante da história do motociclismo brasileiro continuará viva. É esse o objetivo

Publicitário, Designer, Historiador, Jornalista e Pioneiro na Computação Gráfica. Começou em publicidade na Artplan Publicidade, no estúdio, com apenas 15 anos. Aos 18 foi para a Propeg, já como Chefe de Estúdio e depois, ainda no estúdio, para a Agência da Casa, atual CGCOM, House da TV Globo. Aos 20 anos passou a Direção de Arte do Merchandising da TV Globo onde ficou por 3 anos. Mudando de atuação mais uma vez, do Merchandising passou a Computação Gráfica, como Animador da Globo Computação Gráfica, depois Globograph. Fundou então a Intervalo Produções, que cresceu até tornar-se uma das maiores produtoras de Computação Gráfica do país. Foi criador, sócio e Diretor de Tecnologia da D+,depois D+W, agência de publicidade que marcou uma época no mercado carioca e também sócio de um dos primeiros provedores de internet da cidade, a Easynet. Durante sua carreira recebeu vários prêmios nacionais, regionais e também foi finalista no prestigiado London Festival. Todos com filmes de animação e efeitos especiais. Como convidado, proferiu palestras em diversas universidades cariocas e também no 21º Festival da ABP, em 1999. Em 2000 fundou a Imagina Produções (www.imagina.com.br), onde é Diretor de Animações, Filmes e Efeitos até hoje. Foi Campeão Carioca de Judô aos 15 anos, Piloto de Motocross e Superbike, mantém até hoje a paixão pelo motociclismo, seja ele off-road, motovelocidade e "até" Harley-Davidson, onde é membro fundador do Museu HD em Milwaukee. É Presidente do ForzaRio Desmo Owners Club (www.forzario.com.br) e criou o site Motozoo®, www.motozoo.com.br, onde escreve sobre motociclismo. É Mestre em Artes e Design pela PUC-Rio. Como historiador, escreve em https://olhandoacidade.imagina.com.br. Maiores informações em: https://bio.site/mariobarreto

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