Mais veloz que o jato

…mais duro que o aço, super-homem invencível, cavaleiro da paz e da justiça!”

Assim começava cada episódio de National Kid, assim como ontem começou a escalada de Ai Ogura a mais um título mundial, que pode não vir em 2026, mas certamente virá nos próximos anos. Gosto e torço pelo Ogura desde seus tempos de Moto3. Infelizmente sua carreira foi afetada por contusões, principalmente a fratura no punho esquerdo às vésperas de estrear na Moto2. O ano passado também foi marcado por acidentes em Silverstone e Misano, que prejudicaram sua evolução. Este ano ele finalmente pode mostrar todo o seu potencial. Tinha dificuldades em se classificar bem e em lidar com o trânsito das primeiras voltas, mas constantemente se mostrava o mais veloz nas últimas voltas das corridas. Em Brno, no entanto, parece ter descoberto como tirar o máximo do equipamento com pneus novos. Largou em 1° lá e em 2° em Assen. Chegou em 2° em Brno e agora em primeiro, sem se abalar, com a tradicional eficiência nipônica. É, no momento, a 3a Aprilia no campeonato, mas eu acredito que será a 1a no final do ano, pois é o mais equilibrado dos 4 pilotos de Noale.

Este foi um fim de semana pró-Aprilia, e, principalmente, pró-Trackhouse. Várias equipes satélites têm tido sucesso graças aos esforços da Dorna de buscar um maior equilíbrio entre as motos, mas foi a primeira vez que uma equipe satélite fez 1-2 no sábado e no domingo. A Trackhouse ultrapassou a Ducati Lenovo e botou 23 pontos de frente no campeonato de equipes, e há um responsável por isso: Davide Brivio. Brivio orquestrou a ida do Rossi para a Yamaha, onde venceram 4 títulos. Estruturou a volta da Suzuki e conquistou os títulos de equipe e piloto em 2020. Agora organizou a Trackhouse, aproveitando a excelente RS-GP de 2026, e está incomodando a equipe principal. Tenho certeza que fará um excelente trabalho na Honda, para felicidade de Quartararo e Moreira.

A corrida foi boa, mas a pista precisa melhorar. Não dá para desfrutar a emoção da disputa quando o então líder do campeonato leva um tombaço que preocupou todo o paddock. Bezzecchi nasceu de novo e não teve nenhuma contusão séria. Só vai passar as próximas duas semanas gemendo com dores em todo o corpo.

Eu gosto de acompanhar os fins de semana de GP desde o primeiro treino livre, pois o resultado de domingo quase sempre é um roteiro que vai sendo montado a cada treino. Marquez já foi para Assen disposto a correr pra chegar. O circuito tem duas sequências de curvas para a direita que exigem mais do que o ombro pode dar no momento. As curvas 1, 2, 3 e 4 ainda são menos críticas, mas as 11,12 e 13 são uma versão mais veloz das Arrabiata 1 e 2 de Mugello. Essas 3 curvas definem o tempo dos setores 3 e 4, e o Formiga foi sempre lento neles. É preciso lembrar que MM caiu duas vezes no ano passado e saiu bem chacoalhado. Este ano ele estava logo atrás do irmão quando esse se arrebentou na 11. Um pouco antes Aldeguer tinha sido catapultado na 12 e nem conseguiu continuar no fim de semana. Diz que a brita de Assen é composta de pedras grandes que machucam muito. Moreira caiu no Q1 e correu com dores no sábado e no domingo. No fim das contas o atual campeão saiu de Assen com a mesma distância de 40 pontos para o líder do campeonato. Foi lucro. Na verdade, acho que ele precisa é tirar os 15 pontos que o separam do Ogura. A primeira vitória normalmente é a mais difícil: o japonês vai vencer outras, agora que descobriu o caminho e viu que é possível.

Raul Fernandez também fez um ótimo fim de semana e perdeu a pole por ter passado meio centímetro dentro da faixa verde. Acho um exagero, mas isso também custou 1 ponto ao Pecco no sábado e 1 ponto ao Marc no domingo. A Trackhouse vai ficar em uma situação constrangedora: eles não querem renovar com o Raul, mas ele está entregando bons resultados. Brivio já avisou que está de saída e não quer se meter, mas as vagas realmente em aberto para 2027 são duas: uma na própria Trackhouse, outra na Tech3.

Bastianini é candidato às duas. La Bestia, assim como Ogura, é um piloto que sigo desde a Moto3 com grande esperança em seu futuro (eu também acreditava e torcia pelo Tony Arbolino, mas, se me gabo dos acertos, tenho que confessar meus erros). Marini foi decisivo na carreira do Enea ao derruba-lo (sem querer, claro) na primeira corrida de 2023, quando ele estreava pela Lenovo. Acho que o italiano será um substituto perfeito para o japonês na equipe americana.

Há muita gente querendo subir (Gonzalez, Agius, Alonso, Holgado, Guevara) ou vir do WSBK (Bulega) e muita gente deprimida por se saber fora do grid no ano que vem não importa qual coelho tirem da cartola. Miller, Binder, Morbidelli e Rins certamente já estão buscando alternativas. Viñales deu o seu tradicional piti em Assen, e o Steiner retrucou que “não foi a coisa mais inteligente a fazer”. Acho que o espanhol também não vai encontrar abrigo. Se Marini (tentando a Tech3) e Raul (tentando manter o assento) ficarem, alguns jovens terão que aguardar mais um tempo. A questão é que esse tempo é de dois anos. Normalmente.

Há exceções. Após a assinatura do acordo que garante a participação dos fabricantes e equipes no campeonato de MotoGP até 2031, os segredos mais mal guardados do paddock começaram a ser divulgados oficialmente. Marc e Acosta na Lenovo em 27/28, a Bagnaia na Aprilia até 2030: um contrato de 4 anos.

Isso já havia sido ventilado, mas para mim foi uma surpresa. Primeiramente porque contratos tão longos são arriscados para ambas as partes, como ficou demonstrado no caso HRC-MM93, em que a moto perdeu competitividade, e no caso KTM-BradBinder em que o piloto perdeu competitividade. No entanto o mais estranho é a situação do Bezzecchi, que só recebeu uma oferta para 27/28, mesmo estando na Aprilia desde o início de 2025. Mesmo com toda a amizade entre os dois, será que o “Simply the (mais ou menos) Bez” ficou abalado com esse anúncio?

Bagnaia treinou bem e eu achei que ele brigaria entre os três primeiros, mas a falta de feeling no sábado e a falta de freios no domingo foram duas duchas de água fria.

Martin abriu 7 pontos na liderança correndo com a cabeça, após fazer uma pole position demolidora. Ele é outro que não quer se quebrar de novo e ficou satisfeito com um 5° e um 3°. O clima entre ele e o Rivola está péssimo e seria bem irônico se o Martinator, mais uma vez, levasse o #1 para outro fabricante. Honestamente eu não acredito nessa possibilidade, mas certamente ele não facilitará para o Bez, inimigo desde a Moto3.

Acosta continua sendo a esperança da KTM, mas teve dois problemas técnicos no fim de semana, e um problema físico no domingo. Será operado hoje ou amanhã.

Quartararo, que já foi operado para evitar arm pump, também sentiu problemas no braço direito em Assen. De qualquer forma conseguiu um ótimo 8° lugar na corrida, seguido de Rins, que foi promovido a 9° quando Binder foi punido com 16s por pressão do pneu dianteiro abaixo da mínima (acabou em 11°).

Marini foi a melhor Honda em 10°, também beneficiado, e Moreira acabou em um distante 14°, pois levou um chega pra lá do Morbidelli logo na largada, perdeu toda a aerodinamica do lado direito, e teve muita dificuldade nas velozes curvas do sul do circuito. Além das dores no corpo decorrentes do acidente sábado pela manhã.

Joan Mir caiu na 1a volta da Sprint e na 1a volta da corrida: precisamos elogiar sua consistência…

Miller e Viñales fizeram 12° e 13° chegando a mais de 36s e precisam agradecer aos que pararam ou caíram à sua frente, assim como o Diogo.

Até o Augusto Fernandez pontuou, em 15°, chegando a 1 minuto do líder (e ainda recebeu mais 16s por causa da pressao do pneu). Em uma entrevista à jornalistas espanhóis ele deixou escapar que a Yamaha 850cc não está evoluindo como esperado… ainda é cedo.

Diggia fez duas corridas excelentes e está defendendo a marca Ducati com muita garra. Uma medalha de bronze e um quarto lugar foram ótimos resultado para quem não largou tão bem nas duas corridas. De qualquer maneira, a Aprilia mereceu ocupar totalmente o pódio pela segunda vez em sua história. É a melhor moto do momento.

Por fim, eu não esperava que o Alex Marquez fosse chegar em 5°. Nem ele. Segundo o próprio, as dores eram tão grandes que ele pensou em abandonar diversas vezes, mas quando se descobriu tão na frente foi empurrando volta após volta e foi premiado com 11 pontos.

As demais corridas também foram bem disputadas, embora Quiles tenha vencido a 6a do ano e esteja disparado no campeonato.

Na Moto2, os roteiristas hollywoodianos da Liberty capricharam. Alonso perdeu a vitória em Brno na última curva da última volta. Alonso venceu em Assen na última curva da última volta. Gonzalez continua bem, embora uma derrota dessas deixe aquele gosto amargo, e seu companheiro Senna Agius chegou muito perto em 3°.

Nas Baggers, Granado foi pole de novo, venceu a primeira corrida e chegou em 3° na segunda, assumindo a liderança no campeonato. Espero que use a cabeça para finalmente conseguir um título e, quem sabe, obtenha uma vaga em algum campeonato do WSBK, nem que seja no WSSP, onde correm seus velhos adversários da MotoE, Casadei e Ferrari, além de ex-corredores da Moto2, como Arenas e Masia.

Em duas semanas teremos Sachsenring, onde espero que todos os pilotos estejam inteiros e, principalmente, não se quebrem. Sempre prefiro quando todas as motos chegam na quadriculada.

Até lá!

Pai orgulhoso do João e da Nanda, botafoguense, motociclista e cabalista. 15 anos como CIO e membro do Board de empresas multinacionais, participando no desenho e implantação de processos de logística, marketing, vendas e relacionamento com clientes e canais de vendas, inclusive por dispositivos móveis; Morou anos em Londres, é Fluente em Inglês e Espanhol, com conhecimentos avançados (leitura) e intermediário de Francês e Italiano; Possui cidadanias brasileira e francesa.

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