Africa Twin Automática

Meus amigos, este foi um dos testes mais desafiadores que já enfrentei. Agradeço aos amigos na Honda, Alfredo, Marcelo, Bernardo, Taddone, Bonatto, Almir, a oportunidade de conhecer e testar esta tetéia.

Casa do Alemão em Itaipava

Por que desafiador? Porque é uma moto diferente, com seu câmbio automático e com seus 23 (vinte e três) botões nos punhos. Muita coisa para aprender, ler, entender e testar.

Eu já tinha testado a Africa Twin “normal”, vejam clicando aqui.

Resumindo o teste anterior, eu adorei a moto, principalmente no off-road, quando a moto virou uma CRF e me diverti muito.

E como seria com a DCT? Repito, desafiador.

Para começar, vc sobe na moto e fica meio perdido. Como colocar em movimento? Não tem embreagem, não tem pedal de marcha, qual dos 23 botões apertar para a moto andar? Difícil até de um ladrão roubar a moto… se for assaltado você coloca a moto em Neutro, sai da moto e sai correndo. Duvido que o meliante consiga sair com ela.

Este modelo DCT é mais equipado também, conta com suspensões reguláveis elétricamente, faróis auxiliares para curvas, punhos aquecidos, para-brisa dianteiro mais alto, protetores de motor e cárter e mais regulagens ainda no painel digital.

Como não comprei um capacete com fones de ouvido, é contra a minha filosofia de andar de moto, não consegui novamente syncar e usar o Apple CarPlay na moto.

Tive que chamar o mecânico na revenda para ele me dizer qual botão apertar para a moto andar. Drive. A moto fez um clang, entrou em Drive e agora é só acelerar, deixando que ela controle a embreagem. Dá um certo curto circuito mental a primeira vez que se faz isso… e o medo da moto pular? Mas nem, ela sai suave e super controlada. Percebi que convém deixar a moto esquentar um pouco para que ela saia bem suave mesmo. Fria, gelada, a suavidade da embreagem fica um tiquinho comprometida.

Na Ponte, usando o piloto automático para cravar os 80 km/h/

Andando com a moto rápido, não há diferenças, pois na estrada a moto fica em sexta o tempo inteiro mesmo. Na trilha, que conto mais tarde como foi, tem-se recursos para fazê-la fazer o que vc quer. O estranho é andar na cidade, no meio do corredor, no transito lento com ela.

É o seguinte… é uma moto que requer decisão na pilotagem. O computador que controla o sistema integrado de embreagem e marchas é adaptativo. Se ele percebe que vc está pilotando esportivamente, ele estica as marchas e acerta mais. Mas se vc não sabe direito o que fazer, ora acelera, de repente tira a mão, vai devagarinho, acelera tudo para passar numa brecha de transito, pilotagem errática e sem firmeza, o sistema falha miseravelmente. Passa as marchas nas horas erradas, não passa quando vc precisa, faz barulhos no seu pé, é ruim. Lembra o famoso câmbio Easytronic, que os jornalistas chamavam carinhosamente de Easytranco.

Mas a moto tem recursos para evitar isso, tem-se que aprender e sair teclando os botões nos punhos. Para ajudar nessas situações ela tem um botão que “trava” as marchas, evitando que ela passe marchas “para cima”. E os botões de + e -, o seu “tiptronic”. Comecei  deixar a moto “trancada” em segunda marcha quando tinha que duelar nos corredores, e tudo ficou melhor.

Sistemas de double clutch, são assim, são preemptivos. Se eles acertam o que vc vai fazer com o cambio, a passada de marcha é suave e rápida, mas se eles erram, gasta tempo e as vezes tem tranquinho.

Então vamos lá… ela pode ser colocada em D de drive ou em S com 3 níveis, que não testei. E nos dois modos, é só ir teclando + e – para passar as marchas se precisar. E travar em uma marcha apertando outro botão, se precisar que ela pare de passar marchas.

Além dos já tradicionais controles de intensidade de controle de tração, freio motor e potência, ela ainda tem um controle para a quantidade de empinada, 2 tipos de comportamento da embreagem (G-Switch) e 2 tipos de ABS, um para cidade/estrada e outro para off-road, onde vc pode inclusive desligar o ABS na roda traseira. Ah, temos também os controles elétricos para a pré-carga dos amortecedores, onde vc Indica se está solo, solo com bagagens, em dupla ou em dupla com bagagens. Calma, tem mais… pode-se regular os punhos elétricos em 5 níveis, o acendimento automático dos faróis e a mudança de cores do painel, entre noturno e diurno. Peraí! Tem mais… pode-se também escolher layouts de painel diferentes para cada modo de pilotagem.

Os modos de pilotagem são Urbano, Touring, Gravel, TT e dois para vc brincar de programar. É muita combinação, mas assim como eu já tinha falado ao testar a outra Africa Twin, a mudança dos mapas não muda radicalmente a moto, como faz especialmente a sua concorrente Ducati Multistrada. Os mapas todos se parecem…

Saindo com ela normalmente, acelerando de médio para forte, ela sai que é uma beleza, vai passando as marchas rapidamente e suavemente, rapidamente vc está em quinta ou sexta, andando normalmente. Em sessões de curvas ou você vai tranquilo e deixa ela gerenciar as marchas, ou você ataca e sai reduzindo no tiptronic para colocar a moto no seu jeito. Ela rapidamente percebe que vc quer pilotar esportivamente e já fica esperando vc passar as marchas. É bem gostoso e esquece-se do pedal de marchas. O sistema é bem inteligente e parece advinhar quando vc vai jogar marcha prá cima ou para baixo, talvez monitorando o freio e o acelerador.

Repetindo, o ruim é vc sair sem saber o que vai fazer, se vai acelerar ou se vai ficar andando devagar, pegar um transito pela frente, ela fica perdidinha e passa marchas na hora errada.

A quilometragem que andei. Reparem que o consumo ficou alto, dei couro na máquina

No total eu rodei 764.7 quilômetros com a moto, em todas as situações possíveis. Aqui no Rio eu por duas vezes atravessei a floresta na maior escuridão e os faróis direcionais auxiliares foram uma mão na roda, muito bacana o sistema funcionando.

Como eu iria viajar na quarta feira (viajei, estou aqui em Alto Paraíso de Goiás), eu tinha o domingo para colocar a moto na terra e ver como tudo iria se comportar.

Como não consegui ninguém para ir comigo, escolhi ir visitar o Bebeto, o que daria uma boa trilha. Gente, eu estou velho, barrigudo, fraco. Meti a bagaça no facão, Caminho do Imperador molhado, com lama, pneus originais…  O percurso foi Rocio-> Vale das Princesas-> Marco da Costa-> Barão de Javary -> Miguel Pereira. Matou o velho. Quase deixei a moto cair umas 10x, e na volta levei um fechadão de um Santana 1970 branco todo f*dido, com placa de Belford Roxo, sem lanternas traseiras. Meti o protetor de motor na lateral do desgraçado e não sei como não caí. Eu estava em dia de não cair… Até agora estou com os braços doloridos. Na trilha pesada fiz muita força.

Como disse o meu amigo Bernardo Britto: “Esse é o problema dessas motos pesadas. Andando parecem leves e ágeis, mas em qualquer  situação de desequilíbrio fica ruim de segurar. É perigoso! Pode machucar.”

Foi uma combinação de fatores, eu estava em um dia particularmente cansado, sem disposição e o chão muito escorregadio. Nesta condição sabemos que é preciso acelerar forte para a moto procurar chão e passar pelas cavas embalada, mas cadê disposição para isso? Ao contrário do outro teste, com eu bem disposto e na trilha seca, este foi muito sofrido.

Na entrada do Facão

E na hora de parar a moto, se calcular mal e ela passar de uma inclinação X, BABOU! Não tenho perna e força prá botar ela de pé. Aí a opção é empurrar ela até uma posição melhor, fazendo muito força e tomando o maior cuidado. Teve uma hora que eu fiz toda a força do mundo para levantar a bruta, mas aí ela quase virou para o outro lado… segurei na pontinha do pé e pedi a Deus para cortar todo tipo de vento, porque se soprasse uma brisa a moto cairia para o outro lado. Minha perna esticou tanto e fez tanta força que tive a certeza de que no dia seguinte eu iria mancar.

Mas de quase em quase eu passei o dia na trilha, sujei a moto, não caí e me diverti.

É uma moto incrível, com muita tecnologia, mas que precisa ser tocada com outra cabeça. Precisa-se dominar seus comandos, ficar ágil no manuseio de seus botões e abrir mão de certo tipo de feedback pela confiança em sua eletrônica. Ela faz coisas que a versão “manual” jamais faria mas ao mesmo tempo apresenta características não tão boas. A questão é: vale a pena pagar o tanto a mais para ter uma moto automática? Nada sei sobre a manutenção deste sistema.

Por isso é difícil responder, e por isso disse lá em cima que foi um teste desafiador. Tem horas que é melhor ter a manual sobre seu controle, mas tem horas que é bom ter a automática automatizando a sua vida. Minha resposta é um sonoro NÃO SEI. Tudo depende do tipo de piloto e do tamanho do seu bolso. Não controlar a empreagem tem suas vantagens, mesmo no off road.

Na Praça do Alto, na Floresta da Tijuca

Lembro-me muito bem do meu primeiro jipe automático, um maravilhoso Suzuki Sidekick. Eu achava que manual era melhor para o off road, mas que nada, o automático revelou-se muito melhor, liberando minha cabeça e mãos para o controle do carro. Na trilha molhada com a Africa Twin eu passei pela mesma situação, tendo que me preocupar apenas com os buracos e a lama, e zero com o controle da embreagem, é interessante.

Devolvi a moto chorando, é uma moto incrível para ter na garagem. Vou pedir a Honda uma destas para ir até Machu Picchu com a minha filha.

Espero que tenham curtido, eu curti muito. Vejam o álbum de fotos abaixo:

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