Sim, eu assisti às corridas e sei que Martin ganhou a sprint e Raul venceu a corrida, mas é preciso reconhecer que os dois terceiros lugares do Bezzecchi, dada a atual condição física dele, foram o destaque do fim de semana. O italiano acabou ambas as corridas exausto e emocionado, e os 23 pontos conquistados depois de 4 domingos zerados foram muito significativos.
Para sorte da Ducati a Aprilia não está mais concentrando todas as vitórias em um único piloto como aconteceu no início do ano. Todos os 4 pilotos têm capacidade de vencer e estão dividindo os pontos entre si. A Trackhouse teve o infortúnio de ver o Raul cair no sábado e o Ogura no domingo e só por isso a fábrica de Noale não garantiu o Top4 nas duas corridas.
Raul teve um pouco de sorte no domingo porque Martin e Ogura ficaram com o dispositivo que abaixa a traseira travado na primeira curva. Na curva 4 ele já tinha meio segundo de vantagem na liderança e ao final da primeira volta estava 1″127 à frente do Bezzecchi e mais de 2″ à frente do Martin. Desta forma pode se concentrar em suas linhas e na oitava volta já tinha mais de 4″ de vantagem, podendo administrar seus pneus. Foi assim que ele também venceu na Australia ano passado: ele não é um piloto que tenha facilidade para sair de trás e ir ultrapassando até chegar à liderança.
Depois das férias de verão Martin optou por voltar a usar a especificação anterior à corrida de Barcelona, ou seja, a mesma com que venceu em Le Mans, e teve um fim de semana quase perfeito. Falhou na largada da corrida longa e levou 9 voltas para ultrapassar o companheiro de equipe. Usou a cabeça ao não correr riscos na metade final da corrida, principalmente pela queda do Ogura na mesma 9° volta. Chegou à Inglaterra 14 pontos à frente do japonês, e vai para Aragón com 31 pontos de vantagem para o Bez. Ogura a 37, Marc a 40, Diggia a 41 e Raul a 56.
No campeonato, Aprilia venceu 7 corridas contra 5 da Ducati. Até Valencia eu diria que há 3 pistas favoráveis à Ducati (Aragon, Phillip Island e Valencia), 3 favoráveis à Aprilia (San Marino, Indonesia e Malasia), e 4 “neutras” (Austria, Japão, Qatar e Portugal). Essas últimas, principalmente Austria e Japão, serâo fundamentais para desequilibrar a balança de poder, no momento pendendo para a fábrica de Noale.
Gigi levou um nó tático e está vendo suas GP26s sendo esmagadas pela concorrência em circuitos fluidos de curvas rápidas, como Mugello, Assen e Silverstone. Erraram no sábado ao correr de pneus macios na traseira que já chegaram acabados na 4a volta. A exceção foi o Alex Marquez que aparentemente anda mais suave que os outros em circuitos com essas características. Diggia viu os pneus acabarem no sábado e foi mais suave no início da corrida de domingo, chegando com mais borracha que o atual campeão no final. O fato é que as Aprilias estão usando a aerodinâmica para serem mais velozes nas curvas de alta e o pessoal de Borgo Panigale não trouxe nada de novo para uma pista em que era provável tomarem um couro, repetindo Itália e Holanda. Decepcionante.
Decepcionante também foram as corridas do Formiga. Ele começou razoavelmente bem na 6a e no sábado de manhã. No Q2 vinha fazendo um tempo para 1a fila quando encontrou a rabeta da moto do Bezzecchi na reta do Hangar, já no 4° trecho da volta, viu bandeiras sendo agitadas e tirou a mão. Eram bandeiras de perigo na pista, não amarelas, e ele perdeu uma boa volta. Largando em 6°, até que conseguiu se posicionar bem nas primeiras voltas de sábado e domingo, mas quando perdeu aderência no pneu traseiro optou por não arriscar. Palavras dele: “eu não queria cair e me quebrar”. Então eu não entendo porquê renovou o contrato… certamente tanto em Assen quanto em Silverstone ele não deu os seus 100%. Aguardemos alguma mágica em Aragón… o único alento é que Bagnaia consegue ir ainda pior, ou seja, o Gigi tem que se mexer. Não é possível aceitar que Gresini e VR46 consigam fazer acertos melhores do que a Lenovo. Alex conseguiu dois quartos lugares mas deixou um troféu de bandeja para a Aprilia ao cometer uma erro na curva 1, onde caiu ano passado, no afã de chegar no Martin e disputar o 2° lugar. Ficou atrás do Acosta e teve que se esforçar para chegar de novo no Bez, sem, no entanto, ter equipamento para ultrapassá-lo mais uma vez.
Acosta continua fazendo o seu trabalho, provocando e estimulando a KTM, mas 6° e 5° foi o resultado possível. Binder conseguiu um raro 8° no domingo, com Pol em 13° e Bastianini caindo quando disputava no pelotão intermediário: uma decepção para quem já venceu na Inglaterra em 2024.
As Honda conseguiram um 7° no sábado com Mir, que caiu mais uma vez no domingo. Na corrida principal Marini foi 9° e Moreira repetiu o 10° de sábado: um resultado razoável para um rookie, mas decepcionante para o brasileiro, que se sentia com potencial para ir melhor.
A melhor Yamaha neste fim de semana foi Jack Miller, que fez 13° e 12°. Quartararo foi punido no domingo e ficou fora dos pontos, com Toprak e o wild card Augusto Fernandez fechando a zona de pontuação.
As Baggers voltaram a correr na Inglaterra, e o estreante Bradley Smith venceu a primeira corrida, com o pole McDonald em 2° e Granado em 3°. Na segunda corrida a equipe Joe Rascal ocupou todo o pódio com MacDonald, Granado e Jordi Torres. O brasileiro lidera o campeonato 5 pontos à frente do americano, com 2 rodadas e 100 pontos em jogo até o fim do campeonato.
A Moto2 teve a corrida mais emocionante, abrindo os trabalhos no domingo. Manuel Gonzalez podia ter se consagrado, mas comemorou uma volta antes, tirou a mão ao iniciar a última volta, foi atingido pelo Holgado, que teve sorte em não cair, danificou o escapamento e chegou apenas em 14°. Cometer esse erro não é incomum, sem me esforçar muito me lembro do Aleix Espargaró e do Alex Rins (Moto3), a questão é que o Manu chegou ao boxe se queixando de todo mundo, menos de si mesmo. Ele acha que não consegue vaga no MotoGP porque é espanhol. Dizem que o comportamento arrogante também é um empecilho. Ao final da volta derradeira, Filip Salac venceu pela 1a vez, seguido de Ortola, Escrig, Holgado e Guevara.
Na Moto3 o fim de semana começou com Max Quiles 105 pontos à frente do Álvaro Carpe, mas relembrando o falecido Chacrinha, programas e campeonatos só acabam quando terminam. Quiles levou um tombaço no treino e fraturou a clavícula, ficando fora da corrida. Carpe chegou em 2°, atrás do Almansa. e diminuiu a diferença para 85. Como Quiles é um pupilo do Marc Marquez, me pergunto o quanto o tombo e o afastamento do garoto causou influência na maneira em que o Formiga correu sábado e domingo. Em suas entrevistas o campeão deixou escapar duas frases preocupantes: “estava muito perigoso e eu não queria cair e me quebrar” e “ganhar mais um título não vai mudar a minha vida”. Isso me faz pensar: Marc está com medo? Vai mesmo cumprir mais dois anos de contrato?
Afinal, papéis assinados já foram rasgados no passado. Teremos que esperar 3 semanas para ter algumas respostas em Aragón.
Até lá!




