Na minha coluna sobre Balaton Park eu escrevi que se o MotoGP fosse para as férias com Marc Marquez a 50 pontos do líder a luta pelo bi-campeonato estaria viva. Bem, ele está a apenas 18 pontos do Martin e das pistas que virão na sequência: Silverstone, Aragón, Misano, Áustria e Motegi; ele só não gosta da primeira, onde correrá para não perder muitos pontos. Quem apostou na aposentadoria, se precipitou.
O pódio de Sachsenring reflete o que foi o campeonato desde Mugello. Se considerarmos apenas as últimas 5 corridas, teremos que:
1) Marc 133 pontos
2) Ogura 117
3) Raul 91
4) Martin 81
5) Bagnaia 80
6) Diggia 68
7) Acosta 56
8) Bezzecchi 44
As corridas na Alemanha tendem a ser chatas porque é um circuito onde as ultrapassagens são muito difíceis, portanto a largada se torna ainda mais importante. Foi a primeira vez que usaram o espaçamento de 4 metros entre as posições, 1 metro a mais do que antes, então as motos chegaram à primeira curva sem maiores dramas.
A Trackhouse teve um resultado excepcional no domingo por causa das quedas de Diggia e Alex Marquez. Ogura conseguiu ultrapassar o Raul, mas o espanhol quase não correu no domingo devido a um estiramento nas costas. Passou horas no centro médico para se sentir apto a largar, mas concluiu as 30 voltas com muitas dores.
Diggia começou o fim de semana bastante bem, e detinha o recorde do circuito. Ele vinha usando a aerodinâmica de 2024, alternando com a de 2026 dependendo do circuito. Embora tenha ido bem na Sprint, terminando a corrida andando mais rápido do que os irmãos Marquez, resolveu experimentar a aero de 2026 no warmup. Levou um tombaço, mas, ainda assim, achou que a moto se comportava melhor. Caiu na corrida… particularmente eu acho que um warmup de 10 minutos cedo pela manhã, com temperaturas do ar e da pista bem abaixo daquelas em que será disputada a corrida, não é o melhor momento para mudanças radicais. Diggia deixou na mesa 16 ou 20 pontos e quebrou uma sequencia de 17 GPs pontuando. Segundo o próprio, estatisticamente isso iria acontecer de qualquer jeito.
Alex correu no domingo com uma livery homenageando Sete Gibernau, que correu pela Gresini Honda, sendo vice-campeão em 2003 e 2004. Após o 2° lugar na Sprint, tinha tudo para chegar ao pódio no domingo, mas caiu “por excesso de confiança” (palavras dele) na curva 13. aprindo caminho para as Aprilia satélite.
Assistindo à narração da ESPN eu escuto uma quantidade imensa de bobagens. Sempre a mesma babaquice do “será que o Alex vai tentar ultrapassar o irmão?”. Parece que esse pessoal realmente não entende e não aprende. Em 2025, em Assen, na Sprint, Alex comboiou o Marc por todas as voltas sem ter nenhuma chance. Foi chamado de covarde pelo animal que narrava. No domingo, Bezzecchi fez exatamente o mesmo, sem ter tido uma única chance de tentar. Parece que não entra na cabeça de quem devia estar narrando futebol ou vôlei.
Domingo agora o Bagnaia passou metade da corrida grudado no Martin e não conseguiu ultrapassá-lo. Sachsenring tem dois pontos de ultrapassagens: a curva 12 depois da descida, e o sujeito tem que conseguir fazer a 11 grudado em quem vai à frente (ou seja, a primeira curva à direita deste a 3, lado do pneu frio, a 200 Km/h), ou a 1, no fim da curta reta alemã, para que o sujeito tem que fazer a 13 com perfeição. Se o piloto que vai à frente não vacilar, é praticamente impossível.
Marc venceu as duas corridas correndo o mais devagar possível, sem correr riscos. Obviamente não são todos os circuitos que permitem uma pilotagem defensiva. Silverstone tem várias retas e pontos de ultrapassagem, só para citar um exemplo próximo. Independente das corridas terem sido entediantes, esse circuito alemão é um daqueles tradicionais que a Dorna não consegue tirar do calendário. E ainda bateu recorde de público! É como Mônaco na F1… a corrida é uma procissão determinada na 1a volta, a menos que alguém cometa um erro, mas ficará eternamente no programa.
Acosta continua andando mais do que a sua KTM. Passou várias voltas pressionando o Ogura, mas (e esse é outro problema de quem está tentando ultrapassar) seu pneu dianteiro superaqueceu e ele teve que dar um espaço para não perder a frente e ir parar na brita. Chegou em um isolado 4°, também beneficiado pela queda de duas GP26.
Martin fez apenas 5° se queixando de falta de aderência na frente da moto. É bem estranho a Trackhouse ter andado na frente das motos de Noale tanto em Assen como em Sachsenring. Ainda assim o espanhol, manteve Bagnaia sob controle e garantiu um ponto a mais. Na luta pelo campeonato, meio ponto vale ouro. O italiano é que não consegue fazer a GP26 andar. Aí os ignorantes da ESPN repetem a ladainha dele ser “prejudicado” pela Ducati Lenovo. Será que esse pessoal não entende que o financeiro das equipes depende da classificação da equipe no campeonato, e que ter um piloto fazendo menos pontos é ruim para a equipe toda? A Lenovo está em 3° lugar, 20 pontos atrás da Trackhouse e 61 pontos atrás da Aprilia. A posição no campeonato de equipes determina o quanto elas podem cobrar por cada centímetro de carenagem. Alex e Diggia correm com a mesma moto e estavam na primeira fila, a 1 décimo da pole.
Insisto no ponto que o Bez está mal da cabeça, muito pressionado, e penso no quanto o contrato de 4 anos do Bagnaia influencia nisso. Bez era o queridinho do Rivola, ganhou cinco corridas seguidas, bateu recorde de voltas consecutivas na liderança e recebeu um contrato de 2 anos. Aí os patrões trazem alguém de fora em quem acreditam o suficiente para lhe dar o dobro do contrato. É esquisito.
Quartararo fez milagres na M1 arrancando um 7° no domingo. Um 7° que é similar ao 9° de sábado, quando Alex e Diggia não caíram, mas venceu a “Taça Japão”, repetindo Assen. Aliás, além dessas duas corridas, a Yamaha só venceu a Honda em Le Mans e na sprint de Barcelona. Marini lidera essa disputa com 79 pontos em 10° no campeonato. Quartararo é o 14° com 55 e Diogo o 15° com 48.
Muitas contratações já foram anunciadas oficialmente, mas algumas dúvidas já foram esclarecidas nos bastidores. Os bons desempenhos do Raul nas ultimas duas corridas praticamente garantiram sua renovação na Trackhouse onde correrá ao lado do Bastianini. Aldeguer e Bulega correrão pela VR46, sendo queno espanhol terá direito à moto “oficial” assim como o Mir na Gresini. Coloco “oficial” entre aspas porque as motos 27 serão todas novas e ter a “oficial” ou não me parece que será apenas uma questão de quem terá prioridade nas atualizações que ocorrerão durante o ano.
As vagas mais misteriosas do momento são as da Tech3. Viñales deu o seu showzinho tradicional ao publicar que teria recebido uma proposta da KTM que ele assinou e a fábrica austríaca voltou atrás. Pit Beirer o desmentiu, dizendo que o contrato não especificava que a vaga seria na equipe de fábrica e o espanhol não quer correr pela Tech3. Já o Gunther Steiner disse que não sabia de nada e que a partir de 2027 seus pilotos serão contratados diretamente pela Tech3. Ou seja: ninguém se entende. Acho que Viñales está fora. Diz que a Tech3 andou conversando com o Marini e também com o Gonzalez e o Agius, companheiros na Dynavolt Intact na Moto2. Na Pramac há a opção de renovar com o Toprak e aparentemente promover o Guevara.
Em 2027 há um banco de ouro vago no WorldSBK: o do Bulega na Aruba.it Racing. A série passará a usar pneus Michelin, ou seja, pilotos do MotoGP teriam alguma vantagem por já conhecer os compostos (que não serão exatamente os mesmos usados em 2026). Miller, Rins, Morbidelli, Binder e Viñales precisam se apressar para não perder as oportunidades, que não serão muitas. Atualmente Ducati, Bimota e BMW são as melhores motos do WSBK, com as tradicionais Honda e Yamaha andando em um segundo nível. A pergunta que está no ar é: Toprak fica no MotoGP fazendo figuração ou volta para tentar um 4° título, talvez por um terceiro fabricante? A BMW não está feliz com os resultados deste ano… a ver.
Na Moto2. Iván Ortolá obteve sua segunda vitória em 3 corridas, repetindo o ótimo desempenho de Brno. Eñe anunciou sua reovação de contrato para permanecer na categoria. Holgado era bem mais rápido do que ele nas 3 últimas voltas mas não encontrou uma brecha para passar. Guevara completou o pódio. David Alonso caiu perdendo pontos importantes. Agius, Furusato e Gonzalez fizeram o Top6. O campeonato da Moto2 é difícil e cruel. Pilotos que já estiveram no topo hoje se arrastam. Arbolino, Roberts, Baltus (que foi 3° ano passado e hoje é 15°), Canet (22°!), Marcos Ramirez, Jorge Navarro… é um campeonato onde há data de validade. Celestino Vietti, que já foi até cotado para correr pela VR46, é o 7° na sua sexta temporada. Chega em um momento em que o piloto faz melhor pela sua carreira partindo para outra série. Albert Arenas, que foi campeão da Moto3 em 2020, amargou cinco temporadas sem sucesso na Moto2 e agora lidera o campeonato de WorldSSP pela Yamaha. Às vezes o talento não se alinha com a estrutura da equipe, então ou o piloto se muda ou se frustra.
Na Moto3, embora o Maximo Quiles tenha a mão na taça, assistimos ao nascimento de um grande piloto: o rookie Brian Uriarte, que venceu sua segunda corrida e já é vice-líder do campeonato, a 104 pontos do Quiles (6 vitórias, 3 segundos, 1 terceiro).
Agora um merecido descanso até Silverstone, com pausa para torcer pela Inglaterra na 4a-feira.
Até lá.



