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Lembranças do Kleber Klein

E o meu texto sobre o Cabelinho fez o ex-piloto Kleber Klein voltar ao passado. O bicho saiu escrevendo e como é advogado, gosta de escrever. Prometi arrumar as mensagens de WhatsApp e um dia publicar aqui no Motozoo. Procurando por fotos da pista da Tijuca, descobri que Williams James Cabelinho foi também piloto de autorama, quem diria? Vamos então curtir as lembranças do Klebinho que vão abaixo:

“Acho que esta corrida que foi narrada (pelo Cabeção no artigo do Cabelinho), foi a que o Cabelinho não andou na corrida. Ele estava mais lento e na corrida não deixaram ele andar pois iriam perder posições. Mesmo assim, Cabelinho teve uma história fabulosa na sua carreira, tinha tudo pra dar errado mas ganhou corridas em vitórias memoráveis.

Kleber Klein, Adhemar Euclydes, Eu, Paulinho Marolla, uma turma literalmente “dá pesada”.

A abertura do Autódromo com a RD50 foi uma coisa inesperada. Vieram os paulistas, paranaenses e sei lá mais quem. Eram os bichos papões de tudo que era corrida nas 50cc pelo Brasil. Aí me aparece o Cabelinho com uma Yamaha RD 50 abóbora com um motor preparado pelo Maeda, um expert em motores 2T de aeromodelismo, e a carenagem com um Panfoto enorme. Dada a largada, ele deu um pau de dar um retão de diferença para o campeão brasileiro da época em poucas voltas. O retão era enorme, o Cabelinho estava entrando na curva sul, no fim da reta e o Paulista estava fazendo a curva no início da reta. Nós na arquibancada, todos adeptos da RD 50 pulávamos como se fossemos nós a pilotar a RD 50 laranja, não era KTM, junto com o Cabelinho, a quem conhecíamos dos pegas no Alto da Boa Vista. Éramos nós a empurrar com o pensamento aquela motinha linda. Era como se ele estivesse numa 125 correndo contra 50cc. Foi impressionante aquele dia.

Foi abertura do Autódromo do RJ, na primeira corrida e categoria com vitória de um carioca após décadas de frustrações na nossa casa pela falta de nosso autódromo.

Quando eu conheci o Cabelinho, ele andava com uma lambreta nacional depenada. Quase sempre, sexta a noite, ele subia disputando com outra lambreta semelhante a dele. Subiam num cacete os dois de forma que poucos com motos comuns poderiam acompanhar, nesta época, eu ainda estava de Mobylette AV7 quase toda francesa ainda. Eu os vi passarem e perguntei a um amigo sobre quem seriam? Este meu amigo disse que era o Cabelinho e que ele corria de moto as vezes rm SP e que diziam que era muito bom.

Depois o vi na Pracinha do Alto várias vezes. Até o dia fatídico no nosso Autódromo, ai, virou nosso ídolo da molecada das RD 50 na Tijuca.

Maeda tinha uma loja numa galeria de artigos de modelismo e tinha uma pista de autorama que me fez perder um ano de curso de inglês. Ao invés de ir ao curso chato, eu ia pra pista.

Segundo o fotógrafo, Cabelinho está aí nesta foto. Eu não achei…

O engraçado é que quem tomava conta da loja era a Dona Antônia, esposa do Maeda. O nome verdadeiro dela nunca foi Antônia. Era outro e nunca soube qual, devia ser japonês, sei lá. Era japonesa também. E tinha o Geraldo, o faz tudo por la. Educado, gentil e que me ensinou um monte de coisa em carrinhos de autorama. Me ensinou a refazer o induzido do motor Estrela. Preparar, criar dissipadores de calor, mudar o ângulo do coletor do induzido para girar mais. Reenrolar com outros fios mais grossos. Reenrolar o reostato.

Até fabricar chassi, só que meu ferro de solda era fraco e não derretia o estanho. Ficava uma bosta. Aprendi a fazer novos pneus pro carrinho, alterar ou fabricar um monte de coisas. Era legal fazer e ver os resultados na pista. Aprendi com o Geraldo a pintar as carrocerias bolha também.

Um dia, de repente, a loja fechou, desmontaram a pista. Nos disseram que algum deles havia morrido e resolveram encerrar tudo. E nunca soube direito esta parte da história, só sei que ficamos órfãos da loja mais legal que existia de Hobymodelismo no RJ. A Hobylandia no Centro era maior, tinha mais coisas mas nunca foi tão legal quanto a lojinha do Maeda..

Não éramos clientes, éramos crianças, filhos ou netos do Maeda, da Dona Antônia ou do Sr. Geraldo, éramos tratados com um carinho de parentes e nenhum de nós éramos parentes deles.

Era na galeria da Lobrás próximo a Rua Uruguai, onde hoje ainda tem a Loja Americana. Ali era a Lobrás, que tinha uma lanchonete com um Sundae enorme e um cachorro quente maravilhoso. Era certo, brincar no autorama do Maeda até escurecer e antes de ir pra casa, lanchar na lanchonete da Lobrás.

E a volta era as vezes de ônibus, quando ainda tinha dinheiro ou ir a pé até o Largo da segunda feira, coisa que fiz muitas vezes pois sempre voltava totalmente duro por comer demais na Lobrás ou comprar mais alguma coisa no Maeda. Com 14 ou 15 anos, a disposição para andar isto tudo era enorme.

Com 16, motinha e uma namorada, o mundo virou, os interesses mudaram, já não ia mais tanto no Maeda e ai, soube que havia fechado a loja. E uma fase de minha vida virou mesmo apenas lembrança.”

O Klebinho é assim, com uma memória prodigiosa, cheio de histórias e um jeito quase melancólico de lembrar delas. Quase, mas também, como não ter saudades desta época? Obrigado Kleber por nos trazer estas lembranças.