Quartararo, o Homem-Fluido

Uma das coisas que aprendi com o ótimo livro A Arte de Pilotar, escrito pelo Emerson Fittipaldi, é que os bons tempos de volta vêm das curvas rápidas e das curvas que antecedem às retas. Imaginem a importância disso em um circuito em que uma curva rápida antecede a reta. Esse foi o segredo do Quartararo: sua Yamaha fazia a curva 15 com tamanha perfeição que a notória desvantagem de motor não se fez sentir. Ele ultrapassou a Suzuki do Mir em plena reta, e isso se deve à velocidade da saída da curva 15.

O Mário sempre comenta isso e eu concordo: El Diablo lembra muito o Lorenzo na fluidez com que percorre os circuitos, sempre com muita velocidade no apex das curvas. O que não pode é ter alguém na frente dele, determinando a velocidade de entrada e o impedindo de fazer as suas linhas. Por isso que largar bem está se tornando cada vez mais importante nesse MotoGP de muito equilíbrio entre as motos. Um tombo do Pol no final do Q2 anulou as voltas mais rápidas de Marc Márquez e do Quartararo. MM teria largado em quarto, o francês, no mesmo 5º lugar, já que teria sido mais rápido que o Miller, mas menos que o Márquez. As primeiras curvas determinaram o destino dos dois na corrida: Fabio em 2º após a curva 3 e Márquez em 11º. O resto era previsível, pois o atual campeão do mundo tinha sido disparado o melhor do warm-up e o hexacampeão só tinha feito uma boa volta, a última, que lhe deu o 3º lugar da manhã.

Zarco não conseguiu manter a ponta, surpreendido pela Suzuki do Mir, mas fez uma boa corrida, controlando o desgaste dos pneus e chegando em um bom segundo, igualando a melhor posição do Martin, na Argentina.

Dois pilotos que foram muito mal no Q1 e se redimiram na prova foram o Rins e o Bagnaia, que largaram lá atrás e conseguiram um ótimo 4º e 8º, considerando-se que o Bagnaia correu com o ombro lesionado. Devem também um agradecimento ao Miller, que tirou o Mir da prova e deu duas posições de graça para todos que estavam atrás do 4º lugar. O mais sortudo foi o Aleix Espargaró que levou mais um troféu pra garagem da Aprilia e ganhou uns pontinhos na discussão da renovação de contrato. Viñales já voltou a ser aquele cara amargo dos tempos de Yamaha: assim como em Austin, insistiu em dizer que tinha ritmo de pódio e era inaceitável chegar em 10º por largar “lá atrás” (largou em 14º, 5 caíram na frente dele, chegou 4 posições à frente da que largou: na minha opinião fez uma corrida medíocre, mas continua cheio de marra). Outro que se deu muito bem com o tombo do Mir foi o Rins, que divide a liderança do campeonato e é o principal responsável pela liderança da equipe Suzuki Ecstar.

Os tombos do Martin e do Bastianini aconteceram em um momento em que o paddock fala em uma disputa dos dois pela vaga do Miller, que também caiu. É pra rir…

Oliveira fez uma corrida solitária e segura para herdar a 5ª posição enquanto Binder caiu. Ainda assim, o português está 3 pontos atrás do companheiro de equipe, e são 7º e 8º no campeonato.

Alex Márquez teve o primeiro fim de semana razoável do ano, mas a batata dele já está assada: somente ótimas atuações nas próximas quatro provas (Jerez, Le Mans, Mugello e Catalunha) poderão salvar seu lugar no MotoGP. E Nakagami está na mesma situação.

As Hondas estão contando com o teste pós-Jerez para acertar a moto nova, com o 93 em forma. Não acho que o Pol e o Marc estejam atuando em conjunto, pois as famílias não se bicam e sempre competiram nas categorias de base. É uma situação como Dovi e Lorenzo na Ducati, pilotos que sempre se detestaram. Isso atrapalha a equipe.

Dovi e Morbidelli não fazem a Yamaha andar e já há boatos de que o veterano vai se aposentar após Mugello. Há muita fofoca no paddock…

Sobre Jerez, acho que o Quartararo não terá as facilidades que teve no passado porque a curva antes da reta é lenta e a Yamaha acelera menos que todas as outras. Ainda assim, se ele não tiver ninguém na sua frente pode descontar a desvantagem no resto do circuito.

SOBRE A MOTO 2

O que aconteceu domingo no Algarve foi um dos maiores absurdos esportivos que testemunhei nos últimos anos. Um absurdo que pode definir campeonato.

Desde o fim da primeira volta, o comentarista do MotoGP e ex-piloto Simon Crafar dizia que estavam caindo pingos grossos no paddock. Não obstante, a direção da prova não deu bandeira vermelha até que os oito primeiros colocados caíssem na veloz curva 2. É uma categoria que não tem moto reserva, mas a direção de prova deu um tempo mínimo para a relargada, impossibilitando que todos os protagonistas da prova até então pudessem relargar.

Uma nova largada com a “série B” aconteceu para apenas 7 voltas e deram pontos integrais para os 15 primeiros. Celestino Vietti, que era 11º na corrida “série A”, chegou em 2º, marcando 20 pontos com todos os seus principais rivais zerando.

A direção deveria ter dado pelo menos meia hora para as equipes remendarem as motos destruídas pelo seu descaso, ou, então, atribuir metade dos pontos, já que a corrida só teve 7 das 23 voltas programadas.

Pelo menos, Jerez começa na 5ª e vamos torcer para que o fim de semana seja ensolarado.

Até lá!

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