O Novo Motor Ducati de 4 cilindros!

Meus camaradas, hoje a Ducati apresentou o novo motor que irá equipar as suas motos da categoria SuperBike.
O Desmosedici Stradale.

Abaixo vou explicar o que isso significa, como ele é e porque está sendo apresentado com tanta fanfarra.

Um motor Ducati de 4 cilindros não é uma coisa inédita na história da fábrica. Já nos anos 60 eles criaram a Apollo, que nunca passou da fase de protótipo. Depois, quando a Ducati resolveu voltar aos GP’s, a escolha mais adequada, frente ao regulamento, foi um L4, e a Ducati criou o moderno Desmosedici. Sedici em italiano é dezesseis, então o nome diz que é um motor desmodrômico de 16 válvulas.

Baseado na moto do Capirossi, a GP4, a Ducati produziu e vendeu uma série limitada de Desmosedici de rua. Seriam apenas 500, mas o sucesso foi tão grande que acabaram fazendo 1.500. Aí as ferramentas de fabricação se desgastaram e ficou impossível de produzir mais. A moto é uma quase réplica de moto de pista, pensada para a pequena e limitada produção. Esta Desmosedici antiga não era mais rápida do que a V2. Tinha mais motor, mas no conjunto a 1098R dava couro nela.

Eu e a Desmosedici carioca, a moto do Jr.

O novo motor Desmosedici Stradale é completamente diferente, e é um motor pensando para a produção em grande série. Desmodrômico, de dezesseis válvulas (4 por cilindro) de estrada. Existe o Desmosedici Corsa, de corrida, que está na moto do Dovi liderando o campeonato. Mais ou menos né? Porque este motor é baseado na GP15 e não é um GP17 amansado.

Até então a Ducati vinha equipando as suas SBK com uma série de incríveis V2, os desmoquattro (quatro válvulas) 916, o 996, o 998 testastretta, o 999, o milenovantotto(1098) evolution, o 1198, o superquadro 1199 e finalmente o superquadro 1299. Todos são jóias mecânicas e super eficientes. Com eles a Ducati venceu a maioria dos campeonatos do SBK. Menos os últimos, a Panigale não conseguiu ser campeã do mundo. O regulamento e os 4 cilindros em linha da Kawasaki estão batendo sem dó na Ducati e algo precisava ser feito.

Ao escolher um layout de motor, 2, 3 ou 4 cilindros, em linha, em V, em L… longitudinal ou transversal… todas estas coisas tem vantagens e desvantagens. No tamanho, na posição, na potência que conseguem extrair. Em uma mesma cilindrada, os motores com mais cilindros tem a vantagem técnica de produzir potência com mais facilidade, menos stress e mais barato. O Superquadro é potente no mesmo nível, mas para isso tem 200cc a mais e um nível de tunning na lua. É caríssimo correr de V2 contra 4 cilindros, o motor precisa ser levado aos limites. As vantagens do V2, seu peso, seu perfil fino, seu torque em baixa, não estão compensando os novos e evoluídos 4 em linha. Para gerar potência competitiva o Superquadro tem um curso mínimo (super quadrado) e gira como um demônio e o comando desmodrômico permitem, ao custo de perder o torque em baixa.

Deu. Não dá mais. Se a Ducati quiser vencer de novo no SBK, tem que usar o regulamento e seu conhecimento e vir com um 4 cilindros. Taí, começou. Em 2019 na pista. Não este, que tem 1.103 cc, mas um outro, Spec R, de 1000cc (pelo regulamento), que está em fase final de desenvolvimento.

O Luigi Dall’Igna, o atual diretor da Ducati Reparto Corse, tem em seu histórico a criação e desenvolvimento de uma moto e motor sensacionais, a Aprilia RSV4 e seu incrível motor. A Aprilia passou pelo mesmo momento, mas como a sua RSV Mille não teve tanto sucesso como as Ducati’s nas pistas e nas vendas, partiu na frente e pulou no bonde dos V4 primeiro. Gigi fez um motor tão avançado que chegaram a acusar que era um motor de GP. Ganhou 2 SBK’s com eles, usou-os com poucas modificações na extinta categoria CRT. Gigi manja dos paranauê, sabe fazer um motor e uma moto vencedoras. Foi contratado para colocar a Ducati Corse na linha, e para desenvolver a SBK do futuro.

Gigi Dall’Igna

Sua primeira moto na Ducati, completamente sua, foi a GP15. E desde então começou o desenvolvimento do Desmosedici Stradale que hoje foi apresentado. Claudio Domenicale, o CEO da Ducati, prometeu mais do que apresentou, acho eu. A motor não apresentou nada de cair o queixo. Vamos as tecnicidades explicadas, na ordem em que foram apresentadas.

1 – É um motor V4 90 graus, ou seja um L4, baseado no motor de GP (nomeadamente o GP15 que ainda está na pista inclusive). Projetado para ser um motor de larga produção para o uso em uma gama extendida de motocicletas.

2 – A potência anunciada para a partida é de 210 cv’s, (a 13 mil giros) nada demais frente a concorrência, o que denota um nível de stress razoável apenas. Esmagado, fará esta potência subir com facilidade.

3 – A escolha dos 90 graus é fácil de entender, é uma configuração onde as vibrações geradas pelo funcionamento dos cilindros se anulam, dispensando sistemas de contrapesos que aumentam o peso e chupam potência. É uma arquitetura na qual a Ducati tem muita experiência e não poderia ser de outra forma

4 – A faixa vermelha vemos que começa aos 15 mil giros. Poderia girar mais, mas está em discussão no SBK uma regra (faz tempo) de limitar os giros das motos do SBK em 15 mil giros. Para economizar no preço das moto. Mais giros = mais caro = mais frágil.

5 – Para seguir a ordem de apresentação… o motor usa um comando de válvulas desmodrômico, que somente a Ducati usa hoje em dia. Este tipo de comando dispensa as molas para o retorno das válvulas, ele aciona a abertura e o fechamento das válvulas usando peças rígidas e precisas. O acionamento das válvulas se dá por um sistema misto de cascata de engrenagens e correntes.

6 – O novo motor usa um virabrequim em contra rotação. O que é isso? Isso significa que ele gira em sentido inverso ao das rodas. Parece bobagem, mas não é. Um eixo, para girar para um lado, apoia-se no bloco/quadro, que tende a girar para o outro lado. Este apoio gera forças giroscópicas que afetam a suspensão e os pneus. Girando ao contrário das rodas, ele atua como um contrapeso de energia cinética e “neutraliza” mais a moto, tornado menor o desgaste de pneus e facilitando a pilotagem.

7 – É um motor com ordem de explosão Big Bang, um Twin Pulse. Hoje em dia, de maneira simplificada, pode-se escolher em uma ordem de explosão Screamer (Gritador), onde a potência é maximizada, ou Big Bang. O screamer otimiza a geração de potência, mas acaba com os pneus e gera mais potência do que o necessário. Além disso ele grita tanto que desconecta o piloto do grip. Ao espaçar a ordem de explosão durante todo o curso de uma volta do virabrequim, o pneu não tem 1 segundo de descanso. Gerenciar isso tem sido pior do que abrir mão de um pouco de potência e fazer um motor que concentra uma grande explosão (o big bang), mas dá um tempo no virabrequim, que por sua vez alivia a roda e o pneu. Este tipo de motor tem sido mais controlável pelos pilotos. O som que ele produz não é tão bonito, e é mais parecido com um V2.

8 – O diametro do pistão é de 81 mm, o máximo permitido pelo regulamento do MotoGP. Uma maneira de limitar o custo do motor, evitando motores incrivelmente super quadrados cuja a velocidade dos pistões exigiria materiais marcianos. Usar o mesmo na Stradale significa poder usar os mesmos dados e conhecimentos de fluxometria do motor. São dados caros e difíceis demais de obter.

DU 2017-07-19 1409 MOTORE

9 – “Canecos de Admissão” variáveis. Não é uma novidade, a Yamaha já usa isso na R1 faz tempo. Tubos longos dão torque, tubos curtos dão potência. Sendo assim, os tubos variáveis dão as duas vantagens, eles ficam longos até certo giro, quando então diminuem. O motor usa também injetores duplos, um abaixo e outro acima da borboleta, o que também não é uma novidade. Desde o tempo dos carburadores com PowerJet, um injetor atrás da borboleta sempre foi necessário quando o gás está totalmente aberto.

10 – Tudo isso com confiabilidade e durabilidade. O intervalo de manutenção é de 24 mil quilômetros. A qualidade de fabricação, a precisão dos instrumentos e dos materiais, permite isso hoje em dia.

É isso. Muito mais pode ser comentado, mas já ficou grande. O gosto por 4 cilindros do mercado é maior do que o gosto por V2. Vamos agora aguardar a moto completa, que promete se chamar Panigale V4, uma solução inteligente, pois a Panigale ganhará um SBK, hehe. Mas isso só em 2019, em 2018 o V2 terá mais uma chance. Já vimos umas fotos de espião da moto e não curti muito. Muito igual a Panigale de hoje, e ficou parecendo uma Panigale gordinha.

Vamos aguardar. Espero que tenham curtido estas explicações.

Mário Barreto.

 

 

 

 

 

 

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