BMW S 1000 XR

Meus camaradas do Motozoo®, finalmente tive uma boa oportunidade para conhecer a BMW XR (S 1000 XR), a “MTS killer”, e que eu tinha muita curiosidade de conhecer.  Precisava saber como a BMW interpretou o conceito de “Adventure Sport”, tendo tanto tempo para pensar, pois a Ducati lançou a MTS em 2010, e a BMW contra-atacou em 2015. Na verdade eu poderia recuar ainda mais, pois as primeiras MTS de Pierre Terblanche já eram nesta linha. Mas eram menores, e não eram eletrônicas, sem muita sofisticação e, segundo a maioria dos motociclistas, horrorosas (sou minoria).

É um conceito de moto que se provou vitorioso. Uma grande parte dos aventureiros não pratica off-road de verdade, nem tem mais força e idade para fazer isso com uma moto pesada. E uma moto cara (boa qualidade de construção), grande, confortável, bonita, versátil, rápida, bem equipada, cheia dos compromissos com os usos reais, é uma coisa boa demais. Eu mesmo, em minha viagem mais longa, que foi ao Chile, não trocaria uma Adventure Sport por uma Bigtrail. Não que a big trail seja ruim, mas o meio dia de rípio que enfrentei em toda a viagem, onde uma bigtrail brilharia, é pouco em contraste com os 17 dias de asfalto que durou a viagem toda. Não me imagino subindo e descendo Mina Clavero “no pau” (dica imperdível e sensacional do Luiz Acosta) de bigtrail.

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Muitos, ao saberem que eu testei a BMW, já estão me perturbando querendo um comparativo com a Ducati MTS, o que não vai rolar agora. Não é justo com a MTS, pois só conheço a “antiga”, a nova só vi parada. Para saberem minha opinião sobre a Multistrada antiga leiam em http://www.motozoo.com.br/?p=985

Adianto que sim, a BMW XR é melhor do que a Ducati MTS “antiga”. Sobre a nova, teremos que esperar.

E vamos a bruta e ao teste. Consegui esta moto depois de tempos pentelhando o Mario Ferreira, meu vizinho e BOSS da Autokraft, a autorizada BMW do Rio de janeiro. Um palácio de revenda, cheia de conforto, amigos, motos, comidinhas, bebidinhas e de vez em sempre até um churrasquinho. Estava eu por lá e o meu amigo e gerente comercial Guilherme dá a notícia de supetão: “Querido, estamos emplacando uma XR para deixar com você uns dias”. Ueba! Téquinfim. Uma XR completa com todos os acessórios (Dynamic Package e Touring Package), como o descanso central, punhos aquecidos, todas as eletrônicas incluindo o Gear Shift Assist Pro, que permite quickshifts prá cima e para baixo.

Para comemorar, preparei uma viagem de quase 700 kms, com todo tipo de asfalto e até 1h de terra, o que seria uma avaliação perfeita. No dia, saí da garagem e susto, chuva! Chuva forte, maldita chuva. Como fiquei gripado na semana,  pegar uma chuva gelada no meio da estrada de terra da Serra de Resende, um dos lugares mais frios do país, seria fatal. O plano era fazer Rio -> Mauá e voltar por Minas, passando por Bocaina de Minas. É um passeio bonito que recomendo. Com a chuva o quórum do passeio derreteu e decidi fazer Rio -> Miguel Pereira, voltando pelo Vale das Videiras. Um passeio também ótimo, mas menor e mais protegido. Esperei meia hora, a chuva passou e durante o dia não peguei uma gota sequer de chuva.

Parada a moto é linda, com destaque para a parte dianteira e farol, muito mais sofisticada do que a traseira. A traseira da moto é simples e não tem muitos detalhes. O que eu chamo de fator “WOW!” é alto na XR. As pessoas sempre notam a presença da moto, por seu tamanho e design. É uma moto que grita: “Eu sou alta, sofisticada e cara!!!”. Eu acho até que ela parece mais valiosa do que custa.

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A moto é alta, mas não me intimidou. Tenho 1.74m. O apoio do descanso lateral é firme e bem apoiado, uma coisa que devia ser simples mas que os italianos, todos, complicam. Apoiado no banco consigo colocar os pés no chão, mas no limite. O guidão é bem largo, o que dá ótima alavanca. Aliado ao excelente curso de batente a batente, tornam a moto boa de manusear para o seu tamanho. Não é uma GS 650, há sempre um peso, tamanho e responsabilidade envolvidos, mas dentro do possível, ajudado também pela maciez do motor, ela se move lentamente com muito controle e equilíbrio.

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Os comandos, apesar de aparentemente complexos, são muitos botões, são simples de usar e o painel bem visível. São 4 os modos de mapeamento, Rain, Road, Dynamic e Dynamic Pro que podem ser trocados facilmente com a moto andando. Em cada modo um jeito diferente de controle do acelerador (ride by wire), regulagem do motor e dos sistemas de controle de tração e ABS. A suspensão eletronica também oferece opções de regulagem, ESA Road e Dynamic, além do fato de vc poder indicar se está sozinho, com garupa e/ou com malas. Escolhi Rain, Dynamic Road. Ela estava com os faróis no modo automático. Isso significa que na luz do dia ela fica sempre com um led super brilhante aceso entre os faróis, o Day Light. Ao entrar em túnel, ou ao escurecer, ela desliga isso e acende o farol baixo automáticamente. Também regulei o parabrisa para a posição alta. São duas, alta e baixa. Zerei o computador de bordo e finalmente, borracha na estrada. Vou contando na ordem em que as coisas aconteceram.

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O modo Rain oferece menos potência, mas o que sobra é muito ainda. Gostei muito deste modo, calmo, tranquilo e o motor é tunado para fazer um ronquinho rouco em baixas rotações, muito gostoso. Depois passei a usar o modo Road. Apesar de ser um quatro cilindros bravo, este motor não é aflito e não fica pedindo para subir de giros. Ele anda bem em baixos giros. Muito bem, sem dar cabeçadas. Rapidamente e em baixa velocidade vc está em sexta marcha, com indicação no painel, e acredite… pode ficar aí o tempo que quiser em quase todas as velocidades. A XR retoma de 40 km/h em sexta, com saúde e disposição, é impressionante. Quase automática. Que motor.

O freio é forte, mas o ataque poderia ser melhor. O primeiro toque é meio “amadeirado”, embora nunca falte potência, ela não faz aquele tuc tuc de travagem nervoso que alguns freios agressivos fazem. É até bom para o conforto que não faça, mas não não se pode dizer que o freio é fortão.  Já a embreagem, de cabo, é pesadinha. Taí uma das poucas coisas que podiam melhorar, uma empreagem mais suave e leve. Combinaria mais com a moto. O acelerador eletrônico é perfeito, leve, preciso, sem folgas.  O pedal de marchas, depois falarei mais sobre o quickshift, é também um pouco pesado para a suavidade da moto, pode ser que um amaciamento melhore, e as marchas tem que ser colocadas com decisão. Não há qualquer imprecisão ou ponto morto falso, apenas um pouco duro para subir.  Para descer, como é pisando, é melhor.

Já na estrada, no Arco Metropolitano, pude perceber a boa proteção aerodinâmica que o corpo da moto oferece ao motociclista. Ao olhar a pequena bolha, pode-se achar que a proteção é pequena, mas não é, pois ela vem de toda a carenagem e tanque da moto, com a bolha sendo apenas o toque final. O piloto fica bem protegido do vento, o que no final do dia dá um descanso danado aos braços.

Com espaço, pela primeira vez afundei a mão no motor. Meu Deus do Céu, a XR urra como só um 4 cilindros é capaz de urrar, pisca o shift lamp com força e as marchas vão entrando uma atrás da outra em velocidade estonteante. Contei até 3 e estava a inconfessáveis 200 e muito, doido para uma multa. Fiz isso umas 3 vezes e dei por encerrado o teste de mão no fundo. A moto corre e acompanha qq coisa que tenha rodas na superfície da terra. Talvez não ultrapasse, talvez se distancie um pouquinho só, no máximo. Para que vc leve couro, estando de BMW XR, o outro veículo tem que ter asas ou foguetes. Com pneus e motor, não há como tirar onda com ela. É o que eu disse, uma S1000R é mais leve, mais aerodinâmica, mais precisa de guiar a 200 e blau, vai passar, mas não vai sumir. Não dará tempo para o piloto da S1000R botar no descanso antes de você chegar junto. Que motor.

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Testei também o piloto automático, exigência do meu amigo Nelson Ricciardi. Bah… ele é americano e tem uso para isso. Aqui é bom ter na moto, mas não fico usando. E o Guilherme tem razão, quando peguei a moto pedi uma explicação breve sobre os comandos,  teve uma divergência sobre se o acelerador pode ou não desligar o piloto automático. Entre o Guilherme e um campanheiro de trabalho que não lembrei o nome. O Guilherme disse que se voltar a mão ele desliga e está certo, se girar o acelerador ao contrário, ele corta o piloto. Se acelerar não, ela acelera e depois volta a velocidade setada.

Do Arco entramos por Japeri para subir a Serra de Miguel Pereira, passando por Conrado e Arcádia. Muitas curvinhas fechadas a baixa velocidade, ideal para testar a agilidade e suspensões da moto neste tipo de pista. E o resultado é que ela é boa e equilibrada. Suas suspensões transferem peso de modo firme e a moto tem a característica de manter a frente leve. Talvez seja o grande guidão dando alavanca, talvez seja a progressividade e qualidade da aceleração, sempre presente e possível, o que joga peso para a roda traseira… a frente leve, mas nunca boba ou insegura. Eu prefiro MIL vezes uma suspensão dianteira normal do que as Telelever. Talvez seja questão de gosto e experiência. Reconheço que as Telelever são firmes e plantadas, que o natural anti-dive delas passa um sensação de firmeza, mas prefiro o feedback superior e os bons hábitos que uma geometria tradicional de chassi oferece. Freando em uma curva, a moto deve esmagar o quadro, fechando o angulo de cáster e não abrindo como uma Telelever. Questão de gosto, mas o meu ponto é que se fosse melhor, as motos de corrida estariam usando. São diferentes.

Miguel Pereira estava em festa comemorando o aniversário da cidade, batemos umas fotos e fomos para Petrópolis encarar uma churrascaria, pela estradinha que passa pelo Vale das Videiras e Araras. Um show de caminho. Percebi que mesmo doente, gripado e tossindo, eu estava completamente descansado, zerado zerado. A moto é muito confortável em todos os sentidos, o piloto não precisa fazer força para nada.

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Ao chegar na BR 40, mítica, íntima, conhecida, finalmente coloquei em Dynamic Pro e parti para uma pilotagem mais agressiva usando o Gear Shift Assist Pro. Até agora o seu uso não estava sendo grandes coisas. Ele NÃO é um cambio semi-automático, para vc usar as marchas esquecendo da embreagem, não é para isso. Se vc for tentar fazer, vai se irritar com o pedal duro, terá que adaptar sua pilotagem e aceleração para fazer ele funcionar. Se vc colocar carga no eixo do motor (aceleração), ele não entra direito, dá tranquinhos, não ajuda. Pode-se andar devagar e usar ele, basta ir acelerando constantemente e trocando marchas rapidamente na sequencia. Elas vão indo até a sexta sem problemas. O mesmo para descer, basta tirar a mão e ir pisando que ela reduz. Mas não faz a menor diferença e é pior do que usar normalmente.

Então, prá que isso? Prá CORRER rapá! Correndo de verdade este sistema é mágico e muda completamente o modo de pilotar uma moto esportivamente. Com ele vc pode continuar reduzindo com a moto já deitada, bem depois de soltar os freios, no meio da curva, e dali mesmo pode também passar marchas para cima e começar a acelerar sem que o quadro balance 1 mm sequer. Estes quickshifts foram criados para permitir que vc passe marchas tão rápido que não dá tempo de balançar o chassi. Isso + controle de tração = saídas de curva demoníacas. É inacreditável o tempo que se pode ganhar, a segurança que se pode ganhar quando se aprende a usar o quickshift corretamente nas curvas. Ele foi feito para isso, para ser usado correndo, e o seu uso “civil” é apenas uma consequência dele estar ali instalado. E diferentemente de outras motos e fabricantes, você pode esbarrar o pé no pedal que ele não dá cortes no motor. Em outras motos eu já esbarrei o pé sem querer e a moto cortou, como se eu estivesse querendo passar marcha. O sistema da BMW é diferente.

Cheguei em casa tão descansado e inteirão, que poderia fazer tudo de novo.  Andou para 14 km/l.

Isso foi domingo, e na terça encarei o trânsito de Botafogo com ela. Dia quente, trânsito pesado. O guidão largo deixa ela boa de manobrar mas ao mesmo tempo limita em corredores mais estreitos. E um calor quase inconveniente começa a subir pelas pernas. Nada demais, mas são 160 Cv’s de calor ali debaixo, não é moto para ficar costurando em trânsito. Além disso, calor fazia a minha Buell Ulysses 1200. Quem teve uma Buell destas nunca irá reclamar de outra no quesito esquentar.

Devolvi a moto com pena… ela seria uma ótima companheira, é o estilo de moto que mais me atende hoje em dia. Boa para grandes viagens, pequenas viagens, passeios, leva a esposa com conforto, segura, uma moto praticamente perfeita em tudo o que faz.

Fui avisado de que todas as críticas no exterior falam sobre uma vibração no guidão… de fato tem um bzzzzzz inho, que só um cara muito chato veria como defeito. Vibrar vibra a minha Agrale Elefantre que uso até hoje. Vibrar vibrava a minha Yamaha RX 180 Custom! Quem lembra da vibração delas? Hahahahaha, aquilo sim é vibrar. O bzzzzzzz da XR achei muito pouco ou não sou chato o suficiente. No modelo 2017 que vem aí, trocaram a fixação do guidão para eliminar isso, e os donos chatos das atuais dizem que resolvem colocando pontas de guidão mais pesadas.

De certo eu melhoraria duas coisas apenas, a embreagem mais suave e progressiva e um porta trecos na carenagem, que me fez falta. Para pedágios, para controles remotos, cartões de garagem, coisas assim que precisam ficar na mão.

Comparando com a antiga MTS ela é mais completa e confortável, mas a nova MTS foi aprimorada, com mais eletrônica, com um painel colorido e com integração com smartphones, além do sistema keyless e o monobraço. A Ducati parece ser mais esportiva, mesmo que testes americanos duvidem da potência dela, alegados 160 cv’s também. Dinamômetros dizem que a XR é muito mais potente do que ela.

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Dr. Jeckyll and Mr. Hyde. A BMW XR são duas motos em uma. Se você quiser ela pode ser uma aventureira de cruzeiro, suave, tranquila e confortável, ou, apertando 1 único botão, pode ser uma super esportiva potentíssima e também suave e confortável. Um compromisso bom de ter em uma moto só e é por isso que esta categoria de motos cresceu e apareceu. Mas sempre classuda.

Os BMWlistas são muito apegados a GS e seu boxer, que tem uma personalidade ainda superior, uma performance de bigtrail sem igual e um status que encerra discussões. Com certeza isso deve estar comendo as vendas desta excelente moto, que vejo menos do que devia nas ruas. Acho que a BMW não perderia se investisse mais na formação de uma personalidade de XR mais forte, e a partir daí a moto, por suas incríveis qualidades, caminharia sozinha para a conquista de seu merecido lugar nas vendas.

Obrigado Autokraft, Mário e Guilherme pela oportunidade de curtir a BMW 1000 XR, uma jóia de moto.

Mário Barreto

Para a fauna do Motociclismo