A Gorda, Bautista e o Mundial de WSBK

E hoje Bautista e a sua Ducati Panigale R venceram mais uma vez. Em 9 corridas do campeonato disputadas até aqui, agora são 3 por fim de semana, ele venceu todas, e mole mole.

Ainda não bateu o recorde de corridas seguidas, com a nona ele iguala-se a Neil Hodgson que também fez isso com a Ducati 999 Fila em 2003, quando foi campeão do mundo. Só se vencer a próxima este recorde será quebrado. Do jeito que as coisas estão indo, Alvaro Bautista vai vencer todas, se a moto não der problema.

Era a única dúvida antes de começar o campeonato, a confiabilidade da moto. Que a Ducati vinha com tudo todos sabiam. Que a Panigale V4 R é uma réplica de uma moto de GP todos sabiam. Que Alvaro Bautista estava em forma todos viram no GP da Austrália, quando teve uma moto igual a do Dovizioso e andou de igual para igual. A única questão era saber se a moto estava realmente pronta para o pau contra o Jonathan Rea e sua Ninja.

Rea veio dando couro em todo mundo por 4 anos seguidos. A combinação de sua velocidade, regularidade e malandragem, mostraram-se imbatíveis. No processo moeu Tom Sykes, moeu a Panigale V2. E eu sempre achei que ele fazia isso com sobras, escondendo o jogo da sua Ninja. Dava pena do Chaz Davies vindo pendurado no fio da navalha, no limite extremo dele e de sua Panigale V2, sendo ultrapassado e vencido por um relativamente tranquilo Rea. Um dia isso teria que acabar. Acabou.

Este mercado de motos Superbikes está com dificuldades maiores dentro dos problemas que o mercado de motos enfrenta. Vendem pouco, são perigosas, dispendiosas. A corrida por qualidade que a própria Ducati começou com a 916 (ou antes até) levou as japonesas e alemãs para um nível de qualidade de construção e performance que custa uma grana preta. Tudo tem que ser bom nestas motos, e isso as torna caras. Quando a Ducati lançou a sua 916 por uns 20 mil dólares, com versões ainda mais caras chegando aos 30, as japonesas de 1000 cc custavam menos de 10 mil. Mas eram umas jacas de ferro e aço ao lado da pequena, leve e toda cheia dos alumínios Ducati. Ao descobrirem que era possível vender motos por 20 mil, os  japoneses trataram de melhorar suas motos e hoje em dia o nível de construção é quase é igual.

O Campeonato de SBK é feito para ser disputado com motos que são vendidas ao público, em números mínimos. Esta é a graça, o MotoGP é para protótipos (só podem ser) e o WSBK para as motos “de rua”.

O problema é que com o mercado se virando para as motos médias, para as “adventures”, o mercado de super esportivas tornou-se um mico para as fábricas japonesas, não dá lucro, as vendas decrescem a cada ano e as fábricas não investem motivadas o suficiente. Vejam a Honda Fireblade, no momento saco de pancadas no WSBK… vejam a Yamaha R1 que  apesar das modificações, não é revolucionária. A Kawasaki estava mandando porque parou, ficou uns anos investindo pesado, comprou um autódromo para testes e fez uma moto incrivelmente esperta e confiável. Nenhuma revolução, a Ninja é até mais simples do que a concorrência, mas é toda otimizada, potente “bagaray” e que se encontrou na mão do Rea. Sykes também foi campeão, perdeu um bi por meio ponto, a moto é boa.

O azar deles é que a Ducati funciona em outra escala. Apesar de ter multiplicado os seus modelos a Ducati ainda é uma marca que ganha dinheiro com SBKs. Ganha pouco dinheiro, mas ganha, e a venda das outras da linha da marca dependem de seu sucesso nas pistas como vencedora, como tecnologia de ponta. Perder seguidamente o SBK dói mais na Ducati e por isso ela pôde desenvolver a Gorda.

E nem foi tão difícil porque a Panigale V2 e sua equipe técnica já eram do mais alto nível. Ao aproveitar a base do Desmosedici de GP muita coisa já foi aproveitada. Não foi “meter o motor V4 na moto V2”, elas são muito diferentes. Para começar a V4 tem chassi, a V2 é “frameless”, mas muitos dados já existiam para este tipo de moto lá na Ducati Corse. E a equipe de testes, com Pirro à frente, andou muito com a moto em 2018, gastaram os tubos com testes e desenvolvimento da moto. Não podia dar outra coisa.

A Ducati Panigale V4 (a Gorda porque a V2 é a Magrinha) é uma moto diferente e muito superior, mais moderna em projeto e construção do que as suas concorrentes. É basicamente um moto de GP de poucos anos atrás, que gira o seu desmo a quase 17 mil rotações por minuto, potentíssima, progressivíssima, levíssima e mais todas as qualidades.  Foi colocada a venda ao público, nas quantidades mínimas, seguiu o regulamento, está na pista com 2 excelentes pilotos. Chaz começou o ano meio quebrado, mas já está melhorando, hoje pegou pódium. A tendência é a de que daqui prá frente elas sumam na ponta e vençam todas. Só isso.

Já aconteceu antes, de Ducati mesmo, estava acontecendo com Rea e sua Ninja, não existem motivos para susto. A solução é a Honda meter a mão no bolso, a Yamaha meter a mão no bolso, a Kawasaki meter a mão no bolso, a Aprilia meter a mão no bolso, a BMW meter a mão no bolso e desenvolverem uma moto de nível superior. A Panigale V4 subiu de novo o nível e o único jeito de frear ela será ou oferecendo concorrência avançada, ou a Dorna irá mexer no regulamento para igualar.

Enquanto isso veremos um passeio de Bautista.

Abraços
Mário Barreto

Para a Fauna do Motociclismo