Yamaha Fazer 250 no coração do Pantanal de Mato Grosso

Dizem que as máquinas assim como as pessoas tem uma “estrela” própria. Quantos de nós não nos lembramos de carros, motos ou outras máquinas que tinham tudo para funcionar bem mas pareciam “escolher” qualquer situação por mais simples que fossem para encrencar? Existem também aquelas que ao contrário superam expectativas, mesmo as mais improváveis. Essa é a história de uma dessas.

Fabricada no fim de 2008, mas acionada apenas em meados de 2009 após um período de retração nas vendas de motos no Brasil; essa Fazer 250 fora a escolha certa para um piloto que precisava de uma moto para rodar em condições mistas de trânsito intermunicipal e urbano. Por anos ela desafiou diariamente essa combinação de vias, sempre pronta para rodar. Eu sabia que ela não era a opção para as estradas lamacentas ou empoeiradas do cerrado do Pantanal, mas não previa colocá-la nessa situação.

A quilometragem foi se acumulando, por um ano ela foi transferida das ruas de Cuiabá para as do Rio de Janeiro, completou seus 100 mil kms no elevado do Joá, no “colo” da Pedra da Gávea! Enfim voltou para Cuiabá para mais uma jornada de tempo, teve ajuda nesses translados, de lá para cá sempre num transporte, seja caminhão, seja na caçamba de uma Strada.

Como tudo na vida, coisas inesperadas acontecem e quando as pesquisas da Universidade exigiam mais um trabalho de campo no Pantanal, eu não podia deixar de acompanhar os estudantes, não naquela primeira viagem deles. Tal como disse, coisas imprevistas se impõem e o transporte da universidade estava lotado. Eu teria que acompanhar o grupo na velha Fazer no auge de seus nove anos de trabalho diário. A estrada de Cuiabá para Poconé tem 104 km, asfaltada pista simples. Mas nosso destino se encontrava a 58 km mais ao sul, sendo 40 asfaltados também em bom estado. Tudo transcorreu com tranquilidade, mas os últimos 18 km seriam feitos de estradas de terra, com uma areia fina tão fofa quanto a de praia. A informação que eu tive era de que apenas alguns poucos trechos seriam assim, os chamados “areões”.

Com minha tralha de acampamento, barraca, mochila, isolante térmico; tudo debaixo de uma lona para proteger da poeira e amarrado no assento traseiro, a Fazer parecia reclamar um pouco de estabilidade, o centro de gravidade estando um pouco mais alto que o habitual.

Yamaha pronta para sair

Então saímos do asfalto e paramos na primeira porteira. Foram pelo menos 15 porteiras, quase uma por quilometro, obrigando a parada, em pleno o Sol das 10 da manhã de agosto, um mês muito seco e muito quente nessa região do país. Tudo bem, lama não seria problema até porque com os pneus urbanos da Fazer eu nem me atreveria a tentar. Por outro lado os ditos poucos “areões” foram na verdade um só, que começou assim que saímos do asfalto até o ponto de chegada.

Estrada na época da seca. Divertida para as Off Road

Quando ainda nos primeiros quilômetros desses 18 eu percebi que assim seria eu gelei. Andando praticamente de primeira marcha, as vezes passando para a segunda mas aí enfrentando intermináveis “costelas de vaca” que faziam a pobre Yamaha se tremer inteira; cheguei a pensar se o mais sensato não seria desistir. Como desistir? E o trabalho? De qualquer forma eu teria que retornar pelo mesmo caminho com as mesmas dificuldades. Felizmente quem abria as porteiras eram os passageiros da Hilux da universidade, mas o calor e a transpiração pela dificuldade na pilotagem, pneus lisos em areia de praia me consumiam muito mais.

Uma das 15 porteiras

Em certa altura o calor venceu, tirei a balaclava que estava apenas protegendo o nariz e a boca da poeira. Cada metro percorrido era um desafio, moto em primeira marcha, areia desestabilizando a direção, embreagem…..muita meia embreagem….e eu só pensando se ela sairia dali inteira.

A paisagem, uma combinação de árvores baixas e pequenos bosques por onde as estradas cortavam, serviam como área de vida de bois e da vida selvagem. A cada parada de porteira, examinando a possibilidade de estar próximo demais de alguma serpente ou pior, de uma casa de abelhas ou marimbondos…

Ipê florido

Quase chegando no fim dos 18 km o último obstáculo. Uma subida com areia muito fina em um trecho de mais de 20 metros. Se eu parasse ali no meio desse trecho, nem empurrando. A moto estando pesada e encalhada na areia seria uma dificuldade para retirar, mesmo com a ajuda da equipe do carro. Parei. Esperei a porteira ser aberta. Calculei a força necessária e fui, até aqui a Fazer não havia reclamado de nada além das trepidações. Então enquanto subíamos lentamente esse trecho, com a roda traseira levantando mais areia do que avançando, a moto de contorce de um lado para o outro e um cheiro de embreagem queimada entra pelo meu capacete! Pensei comigo, “acho que exagerei na confiança que ela chegaria…”, mas ela conseguiu!!

Parando na base de pesquisas, uma casinha tão pequena que precisei me instalar na minha barraca, do lado de fora; olhei para ela com admiração. Tendo visto essa moto em tantos cenários diferentes, mas todos urbanos, nunca teria imaginado ela ali! Um lugar por muitas vezes visitado por mim para trabalhar, mas sempre chegando e saindo nas capazes rodas dos veículos 4X4….

Ponto de chegada, enfim!
Acampamento perto da base de pesquisas

Apesar dos 100 mil Km de idade ela se comportou como se estivesse apenas dando uma volta no “sítio” naquele dia. Voltamos 4 dias depois para Cuiabá, numa viagem solitária mas muito bonita, Sol, chuva leve, entardecer e o Pantanal Mato Grossense como pano de fundo.

Depois dessa aventura ela precisou parar na oficina? Não, nadinha! Parecia que nunca tinha sido submetida àquela indignidade toda para uma senhora urbana….

O Pantanal? Vejam por vocês o que um passeio desses pode oferecer, especialmente numa Off Road nos meses de maio e junho…

Colheireiros e garças são fáceis de ver em maio e junho
Na época das chuvas….estradas cobertas de água. Apenas para grandes motos e grandes pilotos
Amanhecer no Pantanal
Entardecer no Pantanal
Campo alagado meses antes da viagem

Para a Fauna do Motociclismo