Finalmente tivemos um GP no Brasil, após 22 anos e entendo a empolgação dos fãs e da imprensa local, mas ficamos mal na foto entre chefes de equipe, a imprensa global e boa parte dos pilotos.
Claro que quem foi ao pódio vai levar boas lembranças e vai dar declarações simpáticas, mas falhamos. Falhamos na qualidade do asfalto, mas, principalmente, falhamos na comunicação. É inaceitável comunicar ao grid a cinco minutos da largada que o GP vai ser ceifado em 25,8% da distância. A largada deveria ter sido adiada em 10 ou 15 minutos, para dar a todos os pilotos a oportunidade de reduzir a quantidade de combustível, fazer novos acertos eletrônicos e reavaliar a escolha dos pneus. A situação do buraco de sábado foi tecnicamente bem resolvida, mas a comunicação também foi inconsistente.
É verdade que problemas tão graves quanto, ou piores, já aconteceram em outros países, mas acho que deveríamos nos comparar com os melhores e não com os medíocres. Houve tempo para fazermos um GP impecável, mas deixamos uma má impressão. Pior do que isso, nota-se que a imprensa internacional já aguardava problemas. Aparentemente houve um ano em que a energia elétrica de todo o circuito do Rio foi cortada porque havia atrasos no pagamento, e só foi religada após o devido acerto financeiro. Brasil.

No mais, o traçado é interessante e os pilotos gostaram. A Aprilia consolidou sua superioridade sobre a Ducati, fazendo dobradinha na corrida que conta. Bezzecchi venceu a 4a prova seguida, liderando todas as voltas, no melhor estilo Lorenzo: largando na frente e correndo sem erros. São 101 voltas seguidas na liderança, algo que só outros 4 pilotos foram capazes de conseguir na era moderna do MotoGP: Rossi, Marquez, Lorenzo e Bagnaia. Martin está de volta, para alegria de todos que gostam do campeonato, e Ogura foi bem no sábado e no domingo, embora tenha largado mal as duas vezes. Eles colocaram 3 motos no Top5 no sábado e no domingo. Estão na frente no campeonato.
Aparentemente a Aprilia não sofre do problema que afetou as concorrentes: os pneus traseiros, esses de carcaça mais dura, quando novos, empurram a frente. Isso causou muitas quedas, nos treinos e nas corridas.
As Ducatis passaram a andar melhor com o pneu traseiro desgastado, o que lhes dava mais precisão na entrada da curva. Diggia fez sua melhor volta na 22a: 1’18″856. Marquez fez a sua melhor na última: 1’18″679, apenas 25 milésimos mais lento que a 11a, e melhor, volta do Bez. Ficamos sem saber o que aconteceria com mais 8 voltas.
Na minha opinião, o Dall’Igna se perdeu, querendo fazer uma moto “fácil” para todos os pilotos. Não tem mais a vantagem que tinha. Bagnaia continua mal, os irmãos Marquez perderam muito desempenho, e só o Diggia está andando melhor do que ano passado. Muito boa a participação do Aldeguer, ainda andando de muletas com grande dificuldade. Chegou ao Brasil sem ter testado a moto e foi melhor do que se esperava dele. Morbidelli largou mal e fez duas boas corridas de recuperação, com várias ultrapassagens. Ele é um que tem melhorado ao longo das voltas, quando o pneu traseiro se desgasta. Reclamou muito da redução do número de voltas, porque estava rodando veloz nas últimas. Passou o Moreira no finalzinho. Disseram-me que foi um tanto rude, mas não foi punido.
Houve outras ultrapassagens “block pass”, do tipo que mereceu punição na Tailândia mas passaram em branco no Brasil. Ogura sobre Alex Marquez, por exemplo. Diggia sobre Marc, que foi tão forçada que abriu espaço pro Martin fazer uma dupla ultrapassagem. Por mim, acho bom não punirem ultrapassagens ousadas, a menos que o piloto ultrapassado seja derrubado ou posto pra fora da pista, mas antes de tudo é preciso coerência.
As Yamaha saem do Brasil com alguma esperança. Quartararo quase beliscou uma primeira fila e fez um bom sexto no sábado. Ficou feliz porque se sentiu participando da corrida e não rodando à toa, como aconteceu no domingo. Toprak teve uma centelha na sexta, em uma volta lançada, mas sumiu nas corridas.
As Honda oficiais tiveram um Mir que sempre acaba na brita e um Marini, que está andando proximo demais a um novato. Chegou atrás do Diogo no sábado e só chegou quase 3s à frente no domingo porque o brasileiro largou muito mal, passando em 20° na 1a volta. No mais o Diogo comboiou o italiano toda a corrida e só foi ultrapassado pelo Morbidelli. Zarco teve momentos brilhantes enquanto a pista estava úmida, na sexta. Caiu no sábado e fez um 9° na corrida e foi outro que reclamou na distância encurtada, pois estava rodando bem no final.
Nas classes menores a equipe CFMoto saiu do Brasil cheia de troféus, tendo feito a dobradinha na Moto3 (Quiles e Morelli) e 1° e 5° na Moto2, com Holgado e Alonso.
A corrida da Moto3 foi interrompida por uma bandeira vermelha que ninguém soube explicar, quando o Quiles estava uns três segundos à frente. As últimas 5 voltas depois da relargada foram frenéticas.
Meu palpite é que um certo carioca que estava zanzando pelo paddock viu um botão vermelho e o apertou ao mesmo tempo em que perguntava “pra quê serve?”.
Falando sério, foi mais um incidente criticado pela imprensa internacional, que está até agora sem entender a causa da interrupção.
Daqui a 5 dias estaremos em COTA, onde o Formiga já foi Rei. Com os pneus de construção normal na traseira, circuito anti-horário e seu histórico na pista, ou ele vence, ou a Ducati vai ter que repensar tudo para a segunda metade do campeonato.
A ver.
Até lá!


