Foi só o primeiro

Diogo Moreira campeão, merecidamente! Correu com a cabeça, pois as chances do Gonzalez eram ínfimas. Lembrei-me de 2017, Sepang, quando a Ducati mandou para o Jorge Lorenzo a infame mensagem “Mapping 8” para que ele deixasse o Dovizioso passar e levar a disputa de título para Valencia. Dovi tinha 21 pontos de desvantagem para o Marquez e só venceria o campeonato se vencesse a corrida e MM chegasse de 13° pra baixo. Atrasaram a primeira vitória do Lorenzo na Ducati à toa: já era um título perdido. Assim como Gonzalez já entrou derrotado, largando de 5° com uma garotada cheia de energia e vontade de vencer à sua frente. Fazer a parte dele era quase impossível, enquanto Diogo faria o que lhe cabia com a mão esquerda atras das costas. Acabou que o espanhol fritou seu pneu traseiro, foi até ultrapassado pelo brasileiro e resolveu desistir. A equipe é que o mandou de volta à pista, de pneu novo, para perder de forma honrada.


Foi o primeiro título do Diogo, mas não será o último, pois tenho certeza que ainda nesta década ele será campeão no MotoGP. Vai usar o número 11 “em homenagem ao Romário”. Mantém a ligação com o ataque do futebol canarinho, mas… gosto não se discute. Hoje ele pode tudo!

As corridas no MotoGP não foram muito disputadas. Bezzecchi teve um problema técnico no dispositivo que abaixa a frente da moto no começo da Sprint e perdeu várias posições até a curva 4. Acabou em 5°. Alex Marquez liderou de ponta a ponta, Acosta tentou chegar, mas acabou em um bom 2°, e Diggia, na “péssima” GP25, foi 3°. Valencia é uma pista chatinha de ultrapassar.

Domingo tudo funcionou bem na Aprilia e tudo deu errado pro Alex Marquez, que decidiu correr com as mesmas regulagens de sábado, mas a temperatura mais baixa e o pneu traseiro medio não combinaram. A partir da 7a volta ele não tinha mais tração nem aderência nas curvas para a esquerda. E o circuito Ricardo Tormo é anti-horário, portanto o vice-colocado do campeonato foi vendo todos passarem por ele, inclusive seu companheiro de equipe, que o passou na última curva da última volta, lhe tomando o 5° lugar. No final: Bez, Raul, Diggia (que perdeu o troféu de 3° em 2023 por causa da pressão do pneu e tinha essa dívida para resgatar em Valencia), Acosta e Aldeguer.

Ótima corrida do Raul Fernandez, que chegou em 2° no mesmo dia em que seu irmão Adrian venceu seu primeiro GP de Moto3. Nas últimas 5 voltas Raul tinha mais ritmo do que o Bez, mas usou a cabeça e não correu riscos. Aprilia 1-2, 4 vitórias da marca no ano, um piloto em 3° no campeonato e a marca pela primeira vez em 2°. Admito, sem nenhuma vergonha, que escrevi bobagens antes do início do campeonato. A marca de Noale começou mesmo mal, mas após o primeiro teste, pós-Jerez, melhorou muito com a nova aerodinâmica, e subiu mais um degrau depois dos testes pós-Misano. Honda e Aprilia foram as marcas que mais evoluiram no ano. KTM ficou estagnada, muito dependendo do talento do piloto: Viñales no primeiro semestre e Acosta, quando se conformou e baixou a bola, no segundo. Binder se apagou. Bastianini se classifica muito mal: fica difícil.

Yamaha teve um ano muito ruim, com brilhos esporádicos do Quartararo. Vão apostar tudo no V4, mas não acredito que estarão melhor do que o 4 em linha no primeiro semestre de 2026.


E a Ducati? Como dizer que tiveram um ano ruim se conseguiram a tríplice coroa, a melhor equipe e piloto independentes, o melhor novato? Quem diz que o Marc Marquez é prejudicial, fecha os olhos para o fato de que ele sempre faz muito mais pontos que aqueles que correm com a mesma moto. Em 2024, ele fez mais que o dobro dos pontos do Alex, Bez e Diggia, todos de GP23, e isso nao significa que nenhum desses pilotos sejam ruins, basta ver os resultados deste fim de semana. Marc é apenas melhor porque contorna os defeitos da moto e quanto melhor a moto que lhe derem, mais vantagem ele terá. Não é invencível, ele mesmo reconhece, mas, este ano pelo menos, ele queria mais que os outros. E limpou a mesa na festa de gala do MotoGP: maior números de poles, o piloto com melhores colocações de largada (lembrando que ele não disputou 4 provas), melhor ultrapassagem (é voto popular, e ele é o mais popular) e campeão pela sétima vez. Em determinado agradecimento, ele pediu que a plateia respeitasse todos os pilotos, pondo fim às vaias que surgiam eventualmente em reações a algumas imagens no telão. Ele nunca será um piloto bonzinho porque pilotos bonzinhos não ganham títulos, mas este renascimento conquistou o respeito dos seus pares.


Meu amigo Mario fez uma conexão emocionada do título do Diogo com o motociclismo esportivo brasileiro. Pessoalmente acho que esse título é tanto do Brasil quanto o título do David Alonso é da Colombia.

Ambos se desenvolveram na Espanha, onde Alonso nasceu e para onde o Diogo foi, só com o pai, aos 12 anos de idade. Espanha e Italia são potências no motociclismo porque desenvolveram um processo de formação de pilotos desde muito novos. Talvez o título do Diogo estimule alguma fábrica a fazer um campeonato realmente estruturado para descobrir talentos, mas essa não é a realidade brasileira que depende de alguns abnegados que tentam fazer com que o motociclismo sobreviva. Mataram o autodromo do Rio com a promessa de substitui-lo e só tenho visto disputas políticas e interesses obscuros. O meu agradecimento vai a uma pessoa só: Alex Barros, que tirou obstáculos do caminho do Diogo. Por isso preferiria que ele tivesse escolhido o número 4, mas esse número é tabu entre os japoneses, pois seu ideograma se assemelha ao ideograma da morte. O 4 é o 13 japonês.



Terça-feira começa 2026, mas de forma muito superficial. As mudanças significativas só serão vistas em Sepang, no final de janeiro. Então o mais interessante mesmo será ver o nosso campeão na LCR.

Esses 3 meses e meio até o dia 27 de fevereiro demorarão 3 anos para passar… mas eventualmente tudo recomeçará em Burilam.

Até lá!

Pai orgulhoso do João e da Nanda, botafoguense, motociclista e cabalista. 15 anos como CIO e membro do Board de empresas multinacionais, participando no desenho e implantação de processos de logística, marketing, vendas e relacionamento com clientes e canais de vendas, inclusive por dispositivos móveis; Morador em Londres, é Fluente em Inglês e Espanhol, com conhecimentos avançados (leitura) e intermediário de Francês e Italiano; Possui cidadanias brasileira e francesa.

Deixe seu comentário!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.