Há algum tempo Marc Marquez declarou que o número de pontos por uma vitória não muda se o 2° lugar chegou a 0,1s ou a 10s. Depois de se quebrar inúmeras vezes ele desenvolveu a habilidade de vencer correndo o mais devagar possível. Isso não significa se arrastar pela pista: tanto a sprint quanto a corrida foram mais rápidas do que o ano passado (4s a sprint e 8s no domingo). Enquanto este entendimento não for generalizado vai haver muita gente arrancando emoção de onde não há. Em Aragon, Acosta ficou a 2 décimos do MM até que ele deu 3 voltas rápidas seguidas, abriu 1,5 segundos, e voltou ao ritmo do Acosta. Sábado ele fez o mesmo com o Bez, até fazer a volta mais rápida da sprint na penultima volta (11). No domingo fez o mesmo com o irmão. Então quando vejo comentaristas pagos por emissora de televisão sentar-se na beira da cadeira esperando por um ataque que não virá, e levianamente sugerir que o irmão mais novo não ataca o mais velho por respeito ou covardia, eu fico muito fulo da vida. Por quê o Bez não atacou no sábado? Respeito e covardia? Contratem profissionais melhores.
As motos da Gresini correram com uma pintura em homenagem ao Marco Simoncelli. Ficaram lindas e fizeram belos 2° e 4° no domingo. Alex e Aldeguer ainda terão um papel importante nas corridas que restam.
O fim de semana foi animado, com Bez e MM se alternando na liderança dos treinos TL1 (MM), Practice (Bez), TL2 (MM), Q2 (Bez), Sprint (MM), Warm-up (Bez) e a corrida… Depois de perder a liderança na curva 1 por três vezes seguidas (Aragon, sprint e corrida; Misano, sprint), Bez botou todo o foco na largada e disparou na frente. Na altura do Curvone (curva 11) já tinha meio segundo de vantagem, mas se empolgou. Caiu na 13, em frente à sua tribuna, e abriu caminho para os 37 pontos do Formiga. O campeão confessou que a queda do Bezzecchi o deixou desconcentrado e ele acabou surpreendido pela ultrapassagem do Martin na curva 4 (houve comentarista pago que disse que foi na 14…). Martin abriu 8 décimos, mas ele nunca teve ritmo para manter várias voltas tão rápidas quanto os dois protagonistas. MM retomou a liderança e Martin alegou “arm pump”. Pelos tempos de volta isso não se sustenta porque até a 17a volta ele rodava em 31″5, que era bem proximo do seu ritmo de corrida enquanto liderava. Mais tarde passou a rodar acima de 32″, com a tranquilidade de ter o Raul Fernandez a mais de 6s. Alex, Acosta e Aldeguer fizeram ótimas corridas: daquelas em que não deixaram nada sobrando na moto. Foi, portanto, um fim de semana decepcionante para a Aprilia, que veio com um design homenageando os 80 anos da Vespa e não consegui nada além de um 5° e um 6°, perdendo a liderança do campeonato de construtores para a Ducati.
A sprint de sábado foi menos emocionante, com quase tudo se resolvendo na primeira curva. Marc, Marco e Martin são as estrelas do campeonato e ficaram com as medalhas. Aldeguer, que largou em um ótimo 3°, levou vários chega-pra-la nas primeiras duas voltas e terminou em 8°. Diggia foi melhor no sábado do que no domingo. quando se queixou de problemas no freio (4° e 7°). Raul Fernandez não se sentiu à vontade na sua Aprilia em nenhum momento do fim de semana. Chegou em 7° e 6°. Marini foi a melhor Honda, chegando em 9° nas duas corridas. Mir estava indisposto e quase não apareceu. Quartararo, em uma má vontade só comparável à do Rins, que já anunciou sua aposentadoria, chegou em último na sprint. Aí aconteceu alguma “mágica”, porque foi bastante combativo na corrida arrancando um Top10.
Nosso Diogo Moreira passou 6a e sábado tentando entender o terceiro setor, onde está o Curvone: fez 11° no sábado. Aí fizeram umas modificações na moto que lhe deram mais segurança naquele trecho de alta velocidade e ele foi terceiro no warm-up, o que deixou bem otimista sobre um possível P7 ou P8, mas ele caiu na curva 4, quando tentava ultrapassar o Quartararo. Até o momento ninguém soube explicar a queda. Aliás, o Miller também teve uma queda na 4 durante os treinos totalmente estranha: a moto saiu debaixo dele sem avisar.
Acosta na Ducati vai dar muito trabalho… ele anda mais do que a KTM. Binder e Bastiani brigaram lá atrás na sprint, e o italiano, que conhece esse circuito como a palma da mão, conseguiu chegar em um bom oitavo no domingo. Binder apenas em 11° em uma corrida em que só 14 pontuaram, dando 2 pontinhos para o repórter/comentarista/piloto de teste/piloto substituto Pol Espargaró, que estava entrevistando os colegas logo após a corrida.
E o Bagnaia? Na pista que ele conhece de olhos fechados, foi a pior Ducati na classificação (14°), foi a pior Ducati na sprint (13°) e caiu pelo terceiro domingo consecutivo. No sábado ele declarou que estaria andando na frente se estivesse de GP24. É como uma fixação por uma moto que nem lhe deu o título, pois ele conseguiu a façanha de perder o tricampeonato para um piloto de equipe satélite. Alex e Diggia andam melhor do que ele com a mesma moto… isso já é caso de terapia. E, por favor, não pensem nem por um segundo que a Ducati o está boicotando. São milhões de Euros em patrocínio, centenas de pessoas em desenvolvimento, e o objetivo é vencer o campeonato de equipes e quanto mais pontos, melhor.
Este ano a Ducati vai perder 3 dos 4 pilotos que usam a GP26, embora a chegada do Bulega, que vem desenvolvendo a 850cc, ajudará no desenvolvimento da moto 2027. Ele virá no lugar do Morbidelli, que deixará o MotoGP. Há um boato que o ítalo-brasileiro irá para o lugar do próprio Bulega, na Aruba Ducati. É uma aposta ousada, dar um dos melhores assentos do WorldSBK para um piloto que já passou do seu auge, mas os italianos apostam que o Lecuona seguirá o caminho de vitórias que o Bulega está trilhando em 2026.
Em termos de campeonato, as próximas duas corridas serão muito importantes. O Red Bull Ring favorece as Ducati, mas a Michelin levará o pneu traseiro de carcaça dura que se adapta melhor à Aprilia. A questão do arm pump do Martin pode exclui-lo da disputa, uma vez que serão muitas corridas com pouco intervalo entre elas. A possibilidade de uma cirurgia fica restrita à 2a-feira logo após a corrida da Áustria, pois haverá 11 dias até a chegada em Motegi. Ogura fez falta em Misano e a ausência em duas corridas seguidas foi um balde de água fria no bom momento do piloto japonês. Voltar a competir em Spielberg é fundamental para que ele possa ir bem na sua corrida de casa.
As outras corridas eu tive que assistir no replay. A da Moto3 bastava assistir a metade final da ultima volta, quando o pobre Almansa perdeu nos últimos metros a corrida que liderou desde a largada. Max Quiles venceu a oitava do ano. Na Moto2 o novato Angel Piqueras, que largava em 3°, derrubou o 2° (Holgado) e o pole Senna Agius na primeira curva. Tirou 90% do meu interesse na corrida. Já escrevi aqui: eu gosto quando todos chegam. Não fiquei feliz com a queda do Bezzecchi.
O bom é que na 6a-feira tem mais.
Até lá!



