A Questão de Lorenzo

O assunto está pegando fogo no MotoGP. Hoje, mesmo sem um comunicado oficial da Ducati, vários dão como certa a sua saída da marca. Sendo este um blog de opinião, não posso deixar de deixar as minhas impressões. Ainda mais sendo um ducatista.

O ambiente do MotoGP, de uns anos para cá, tem andado animado nesta questão de contratações. Inventaram até um nome, Silly Season. O que está acontecendo com o Lorenzo já aconteceu antes, vai acontecer novamente e é o resultado de um monte de variáveis.

Certamente o plano da Ducati com Lorenzo fracassou, como fracassou com Rossi. E fracassou também com Marco Melandri, com Nick Hayden, com Ben Spies e outros. Rossi e Lorenzo, muito mais do que os outros, são pilotos de competência e qualidade acima de qualquer suspeita, de modo que a fonte de dificuldade só pode estar na Ducati. As Desmosedici são motos incríveis, capazes de corridas brilhantes, com um motor diferente de todos (desmodrômico) e com uma potência que ainda não foi igualada pelas outras fábricas. Considero até o fato da Honda RCV ter mudado para uma configuração V4 de 90 graus uma homenagem. Mas no geral, é e sempre foi uma moto imperfeita na pilotagem, difícil de setup e tocada por uma equipe teimosa, de grandes mas não ilimitados recursos. Certamente menores do que os de Honda e Yamaha. Quiçá até a KTM em breve terá mais recursos do que a Ducati.

Ah.. mas Casey foi campeão com ela! Sim, e ganhou muitas provas. Mas vamos aos fatos, Casey Stoner com todo o seu talento, garra e capacidades, ganhou apenas 1 campeonato com ela, em 2007, quando a cilindrada passou para 800cc e a Ducati adiantou uns 6 meses de desenvolvimento da moto. Honda e Yamaha estavam como sempre abraçadas com o campeonato e não puderam se dar a este luxo. Quando começou o campeonato com motores novos, a GP07  800cc saiu voando na pista e até os japoneses acertarem suas motos e se recuperaram do susto, a Ducati foi campeã. Depois, nunca mais. Mesmo com Casey Stoner on board, perdeu todos campeonatos embora ganhasse algumas corridas e no processo massacrasse algumas reputações, como a do bicampeão do mundo Marco Melandri.

Durante todo este tempo Casey Stoner reclamava da moto, chamava a equipe de teimosa e clamava para si o mérito de a moto se classificar bem. Casey saiu e foi para a Honda, meio chateado, onde ganhou de primeira um novo campeonato mundial. Para mim ficou claro que ele carregava a moto,  ele disse isso várias vezes.

Casey e Dovi tem uma coisa em comum. Não são bambinos d’oro como foram Rossi, Pedrosa, Lorenzo, MM. Eles passaram dificuldades em suas carreiras, andaram em equipes que não eram as melhores e subiram na carreira sabendo o que é não ter a melhor moto. Acostumaram-se desde sempre a correr com o possível no momento, sabendo que suas equipes não teriam nunca recursos humanos e grana para acertar algumas coisas, fazer a moto perfeita.

Já os outros citados não, sendo pilotos oficiais de fábrica desde sempre, a expectativa e trabalho deles é o de fazer a moto mais perfeita possível. Eles e a fábrica vão juntos até o fim nisso, fazendo o impossível para resolver todos os problemas da moto. No nível de  ganhar campeonatos e fazer campeões de MotoGP é assim que se faz. Por isso nunca uma equipe satélite chegou perto de um título e contam apenas com uma mixaria de vitórias, sempre em condições especiais. O nível é altíssimo. Rossi, Lorenzo e MM precisam de fábricas inteiramente dedicadas aos seus serviços. Em troca eles conseguem aproveitar estas motos mágicas sem cair e vencem campeonatos do mundo.

Hoje vemos que MM domina o campeonato, que sua moto está a cada dia mais fácil de pilotar, mas o HRC inteiro, desde a recepcionista só faz uma coisa: Trabalhar para Marc Marquez. Pedrosa anda com o que sobra e é mula de testes. A Yamaha está com problemas e a Ducati também, e muito disso deve-se ao fato que em ambas esta divisão não foi colocada em prática, por motivos parecidos.

Vamos ao caso da Yamaha. Hoje a equipe tem Viñales e Rossi, mas a moto não é feita claramente nem para um, nem para outro. Lá atrás a Yamaha tomou a decisão de investir em Jorge Lorenzo, um jovem e talentoso campeão. E isso rendeu bem, 3 títulos mundiais. Porém Valentino Rossi não se conformou e nunca se conformaria, usando todo o seu prestígio e estratégias para recuperar a sua posição de número 1. Ele sabia se não fosse assim ele nunca mais ganharia um campeonato de novo. Nesta disputa ele perdeu, e foi para a Ducati ser o número 1. Deu errado e isso é outra matéria. Voltou para a Yamaha e a disputa continuou. Mesmo com Lorenzo campeão do mundo a Yamaha balançou, aporrinhou Lorenzo que foi ser o número 1 na Ducati.  Mas a Yamaha novamente fez outra escolha, escolheu Viñales como o futuro, não podia pensar de outra maneira, apostar num futuro com Rossi é muito arriscado. Tudo aconteceu de novo, Rossi botou seu time na rua e sacudiu tanto as estruturas da Yamaha que desde então vem levando pau até da Ducati, pois a moto não é dele, nem é de Viñales. A Yamaha não trabalha desde a recepcionista para um, nem para outro. Como vencer MM/HRC assim? NUNCA.

A Ducati recebeu Lorenzo achando que a GP17 estava pronta para ser uma moto de ponta, faltando apenas um piloto acima de qualquer crítica para explorar a ponta do campeonato. Evidentemente a GP17 não estava no nível que ela achava. A Ducati também achava que Dovi apesar de bom piloto, era um Pedrosa, um piloto que não se comparava com Lorenzo e bom para o desenvolvimento. Aconteceram então coisas diferentes do que planejaram, a GP 17 foi superavaliada e Dovi deu um salto de qualidade que não se esperava. A Ducati teve então que se dividir entre dois pilotos e o resultado é o que acontece com a Yamaha, levam pau da RCV de Marquez. A GP17 e 18 são motos potentes, de difícil e demorado setup, complexas de acertar, que andam bem em algumas pistas, que não se acertam em outras, extenuantes de se pilotar e imprevisíveis. Em 2017, aproveitando-se da inesperada boa forma e adaptação do Dovizioso e de uma RCV com problemas de motor (os motores são congelados durante o ano, não se pode mexer neles), deram a impressão de que estariam mais prontas do que nunca para um título. Não estavam, foram circustâncias que não estão se repetindo e que a vitória na abertura do campeonato só fez piorar. A GP 18 é uma desmosedici como as outras. Andam como o demônio na reta mas nas curvas são cabeçudas e teimosas como Tardozzi, Gigi e Domenicali, just to name a few. Este é o DNA da Ducati.

Para mim Lorenzo não perdeu 1 mm de seu talento, que está acima disto tudo. Não é bom, não é legal, é uma frustração, vai perder dinheiro, vai dar uma alegria ao Valentino, é tudo de ruim, mas infelizmente e novamente, não deu certo. Ele vai ter que sair mesmo.  E se não tiver moto para andar, pode contentar-se com o fato de que uma temporada de vermelho na Ducati fez ele ganhar o que Dovi não ganharia em 10 anos (com o salário antigo). Pode fazer o que Stoner fez, ir pescar, só que com muito mais dinheiro ainda. Lorenzo ganhou 5 campeonatos mundias, 3 de MotoGP e sempre foi muito mais bem remunerado do que Stoner. Tá com o boi na sombra e inteiro, sairia do circo sem faltar pedaços significativos. Apenas um pedaço de dedo.

Acho uma sacanagem ficarem comparando Lorenzo com Mir… Este tem que comer MUITO feijão ainda, não tem comparação. Lorenzo é para Rossi, Marc Marquez, dos que estão na ativa. Apesar do bom momento, nem Dovi se compararia, e tem que comer muito feijão também. Ir para a Suzuki seria uma boa para ele, mas parece difícil no esquema fraco de grana que a Suzuki ainda tem. Nunca foi das mais bem patrocinadas equipes. E tem agora esta “moda” de investir em jovens talentos do campeonato. Investem, investem e quem continua ganhando os campeonatos são Marc Marquez e Lorenzo.

Lorenzo na Suzuki como indiscutível número um seria um movimento muito bom para ele, mas a Suzuki teria que ter recursos para entregar uma moto capaz de vencer. Tenho certeza de que ele aceitaria uma redução de salários, as condições são outras, mas mesmo assim a Suzuki teria que ter recursos para ele.

A Ducati estaria entre Jack Miller e Petrucci…é o que dizem. Meu voto é Miller, impliquei com Petrucci desde que ele se provou gente boa demais, deixando de brigar com o Rossi por aquela que seria sua única vitória no MotoGP. Os deuses das corridas não perdoam isso. Nem eu.

Outros ainda ventilam a hipótese de Lorenzo com uma terceira Yamaha, bancado pela Monster e Dorna, na nova equipe satélite que a Yamaha irá apoiar para substituir a Tech-3. Faz sentido e sabemos nós e os japoneses, que Lorenzo e Yamaha é uma combinação que dá certo.

Torço para que o Lorenzo ache um espaço no MotoGP e vamos ver o que vai acontecer. As fotos eu peguei em sites da internet…

Mário Barreto

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